Tomar partido é um ato de coragem.
Vamos esclarecer as coisas: a palavra “partido”, como você sabe, etimologicamente, já traz embutido seu significado: é a “parte”, a fração de um todo. Desse modo, tomar parte por um partido (trocadilho esclarecedor) significa defender, lutar (usando dos meios racionais) por um conjunto de idéias. Concordo com a opinião de que a paixão, seja a política, seja a religiosa, seja de que espécie for, por ser paixão, (com exceção daquela entre os amantes) por subestimar o aspecto racional das coisas, é sim condenável. E é condenável pelo fato de não levar em conta o outro, “fechar” os olhos para o contraditório etc. Impulsividade obtusa, portanto, é ausência de critérios, é colocar os sentimentos acima da razão.
Mas isso não quer dizer que TODOS que defendam um partido político, uma crença religiosa, uma causa, que se empolguem com seu candidato, que mostrem suas convicções políticas de forma aberta e não temerosa, sejam destituídos de massa cinzenta e ajam passionalmente, insanamente, como numa manada. De forma alguma!
Acredito que ter predileção por um partido político, por uma agremiação de futebol (guardadas as devidas proporções), não é necessariamente um ato de burrice. Cômodo (não obstante ser um direito de qualquer um) é se colocar numa pretensa neutralidade pseudo-intelectual. Meu caro Sérgio, investigador das coisas do mundo, sugiro-lhe humildemente que no escopo das suas elucubrações esteja também essa questão: a capacidade do bicho homo sapiens de se levar por seus (dele) ideais e de ter a humildade e a capacidade de discernimento de enxergar até onde seus argumentos na defesa daquelas crenças podem ir.
Quanto à política, desde Aristóteles, passando por Max Weber, Karl Marx e outros “monstros”, ela continua a mesma, pois é um reflexo de nossa vinculação com o mundo. Se nestes pobres trópicos ela é balcão de negócios, trampolim para medíocres, feira de vaidades e outras degenerações do mesmo quilate, está dentro de nossas obrigações vigiar nossos políticos, condená-los quando for o caso. E se eles, na sua grande maioria, não estão cagando, desculpe pelo termo, pela grande maioria dos mortais que estamos do outro lado do balcão, com toda certeza não é com a postura pseudo-blasé, pseudo-cética, poser, que vamos aperfeiçoar nossa política. Se os políticos são o que são, é fruto da absoluta falta de dados, de conhecimento, de informações da maioria semi-alfabetizada (e também da alfabetizada) deste país. É por causa de pessoas que mantêm o seguinte critério que chegamos ao fundo do poço.: “Meu voto vai para Fulano, porque ele roubou menos do que o Beltrano e os cupinchas dele (do Beltra) que não fizeram nada e querem voltar…”. Contra tal “argumento” há contestação?
Não se pede que todos leiam jornais todos os dias, o que seria utópico. Mas que informação é uma arma poderosa isso é um fato incontestável.E temos que acabar com aquela mentalidade de bacharel que envolve o conceito de política de muitos neste país: “Ah, política é pros homens lá de Brasília, eu quero mais é cuidar da minha vida. Eles lá que se entendam. Tô pouco me lixando!”.
É por essa sacralização, e também pela praga do personalismo (“Doutô Fulano é quem vai botar ordem no pedaço!”) que nossa vida política é solapada, que a situação está assim.Antes de se resignar, agir.
Antes de cruzar os braços, procurar se informar. Informando-se, cobrar deles. Há meios para isso hoje. Esses meios de pressão estão aí, para quem for atrás.
Obviamente há outras carências mais urgentes neste país de famintos. Famintos de comida, educação, cultura, afetos, respeito etc etc… Mas isso não é desculpa para se prolongar ao infinito a questão da falta de informação, esse apartheid que há no Brasil.
Concordo totalmente com sua opinião, meu caro Sérgio, quanto ao desgaste semântico de palavras como “povo”, “amor”, “pátria”, entre outras muitas muletas lingüísticas, tão astutamente usadas por espertalhões em campanhas eleitorais.
Outra constestação: agir independentemente, numa sociedade constituída, tem limites. Precisamos nos organizar, não podemos crer cegamente num voluntarismo ingênuo.
Concordo quanto à total descrença num Messias político. Igualmente acredito que certezas, sejam de que quilate for, são sempre estúpidas (até essa???). Mas, todavia, contudo, no entanto, porém… é da natureza humana, é intrínseco à nossa constituição intelectual lançar mão delas. Que o façamos, porém, menos dogmaticamente, isso tem meu total aval.
Quanto à suposta mentira de ambos os candidatos, atribuo sua opinião há um certo simplismo generalizante, compreensível. Se você quiser mesmo estar tão seguro, (não repare a sinceridade deste humilde datilógrafo) até para seu próprio esclarecimento, recomendo que … se informe um tantinho só. Você verá quem é o mentiroso mor, crônico, contumaz entre os dois.
Sei também que cada um responde por suas atitudes. O candidato Geraldo Alckmin, humano que é, obviamente é falho. Mas toda generalização tem limites… O “ouvir dizer”, expressar opiniões de natureza política com base em “impressões” é meio arriscado. Sobretudo para aqueles que investigam o mundo…Talvez assim, com as devidas informações, sua “neurastenia política”, meu caríssimo Sérgio, passe ao largo.
E bom debate para você. E escolha bem os “mentirosos”, viu?
E obrigado pela participação.
Depois trocamos umas idéias sobre “Jules et Jim”, do Truffaut, que acabei de ver…
Quanto aos outros participantes, leitores deste blog, mesmo aqueles que não se manifestam, que são a maioria, todos são bem-vindos e responsáveis pelo grande número de acessos diários. Merci beacoup!
Um abraço
Elienai