Experiência philozóphika com o Tempo: faça isso em casa (Texto revisto e corrigido!)

                             

     Ultimamente, tenho tido umas idéias meio obsessivas no que diz respeito à duração do tempo. Ou melhor, à duração subjetiva do tempo. Quer dizer: a forma com a qual ou a partir da qual mensuramos o tempo. Sim: esqueçamos por um momento (um minuto contado!) o tempo cronológico convencional… Claro, isso não é lá muito fácil, tal o grau da nossa dependência e condicionamento à coisa. Mas tentemos…

     É difícil, mas não impossivel. Bem, retirado aquele caráter universal e racionalmente cronológico do Tempo, que possibilitaria que Shakespeare e Paulo Coelho, Gretchen - sim, “aquela” – e Jane Austen, Latinogosh! - e Oscar Wilde trocassem informações triviais sobre as horas, se contemporâneos fossem (e excluídas igualmente, claro, todas as impossibilidades lógicas para tais encontros surreais) o que sobra é uma “corda” esticada, afrouxada e novamente retesada em função das nossas impressões subjetivas. Tudo bem: isso não é nenhuma novidade. Sem problemas: o que se busca aqui não é a originalidade, nem as luzes de ribalta. Mas, isso sim, umas “reflekissõezinhas” inofensivas e de meia-pataca…

     Sente-se num lugar escuro. Desligue aparelhos de qualquer espécie. Na escuridão, sentado (a) confortavelmente numa poltrona ou deitado (a) na cama, imagine um grande mar, imenso, a perder de vista! Nele, você é, distinto leitor, mimosa leitora, um barquinho a vagar, frágil e à deriva. Tudo ao redor é o Tempo. A extensão e as dimensões desse mar são determinadas pelas suas mais profundas idéias, impressões pela vida afora etc e tal. Quanto mais intensas, maior é a impressão (ilusão?) de que o Tempo se estende, se expande. Quanto menos intensas, mais exíguo ele é. Em outras palavras: o seu mar (Tempo subjetivo) se aproxima do horizonte ou se afasta dele à medida que você experimenta (ou não!) a vida com mais (ou menos!) empenho, intensidade, seja o que for.

      Após essa experiêncial altamente benéfica de relativização do Tempo (que Teoria da Relatividade o escambau!), você, distinto leitor e você, amável e coquete leitora, estão, junto com este que vos escreve, de mãos dadas, cabeça erguida, prontinhos para ir ao Juquiri, ao Pinel, enfim, à Casa de Orates do velho Machado.

     

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     Ao som de Ray Charles, Live at Montreux, 1997 (DVD).

Do baú – 2

 Texto originalmente publicado em 2 de agosto de 2006

 

 

                                     Da sarjeta existencial, com carinho

 

 

                                

  A sensação de estar preso a um lugar é uma das mais desagradáveis. Sabe aquele sentimento de que os vínculos com o lugar acabam sobrepujando toda e qualquer possibilidade de vislumbrar o horizonte? Ou, mais precisamente, e por outro enfoque: sabe quando a rotina, a mesmice, a eterna repetição de tudo, lugares, rostos, paisagens etc, tudo isso, todos esses elementos juntos proporcionam uma impressão de clausura, de morte em vida das expectativas? Pois estar vivo é estar à expectativa. Mas é como se elas, essas quimeras essenciais (sem as quais a vida neste planetinha obscuro, por parte do homo sapiens, regride às origens), fossem sumindo, uma a uma e se resumissem à eterna busca pela sobrevivência. E só! Ah, sensação limitadora, castradora de ideais, víbora do eterno retorno, não o do filósofo, mas o mais mesquinho, trivial e sem brilho mesmo. É duro viver em descompasso com o mundo. É desumano viver assim, com os ideais cansados pela espera da realização, quase puídos pelo indefectível adiamento, rotos pela aspereza da realidade, pela fricção com um mundo hostil, pela bárbara violência de todos os matizes, pela estreiteza de todos os naipes, pela, enfim, epifânica descoberta de que eles, os ideais, já trazem em si a miséria latente, em estado de potência e também o auto-engano e o iludir-se ad infinitum. Porque tudo enfada. Tudo cansa. Tudo envelhece. E fenece. E some.

Do baú – 1

Texto originalmente publicado em 3 de agosto de 2006

 

 

                              Depressão? Impressão sua!

 

 

  Sono, desânimo, tristeza esparsa, preguiça de existir, tédio, melancolia, perda dos ideais, apatia, indiferença, falta de interesse geral, aversão ao barulho, a vozes, a futilidades. Desamparo, sensação de extravio existencial. Tem como, disso, sair algo proveitoso? O que nos leva a isso? Falta de uma alimentação balanceada? De sono? De amor? É azar? Sina? Mandinga? Quizumba? Urucubaca? Mal-olhado? Encosto? Desequilíbrio da química cerebral? De neurotransmissores? Gripe encubada? Problemas gástricos? Proximidade da morte?  Ou seria resfriado? Crise existencial? Excesso de sensibilidade? Falta de Deus? Obra do demônio? Isso, aliás, mata? Isso é excesso de pruridos taxonômicos? Ou fruto da falta de nichos, categorias e impossibilidade apenas de discernimento? De que gaveta conceitual sacar tal sentimento? E tal sentimento é passível de ser categorizado em definições estanques? Não seria uma contradição em termos limitar o que sempre muda, transforma-se, altera-se, varia, metamorfoseia-se? Onde tudo isso vai parar? Se é que pára o que se move.

  Não tinha a intenção de ir tão a fundo. Juro.

Quantas besteiras e tolices e asneiras ainda haveremos de ouvir, ler e ver na vida?

Já se fizeram tal pergunta? Não, falo sério. Nada de brincadeirinhas com este post…

Fico imaginando ainda o quanto me resta de tempo (digamos que tenho uma bola de cristal) para presenciar a tolice humana. Será que nunca vai se esgotar o repertório de canalhices?

Claro que se trata de uma perguntinha retórica.

Mas vendo as coisas por outro prisma: se é tão certo também que a inesgotável criatividade humana para usar seu lado asneiral é infindável, igualmente o é sua capacidade de criar algo mais valioso e permanente. Entre aquelas coisas que suplantam as asneiras, estão as artes.

É um grande consolo pensar assim, cá entre nós.

Uns têm a religião.

Para outros, a arte é uma forma de religião, penso eu.

Amém.

PS: Ok, concordo: este post pode bem liderar tua lista de baboseiras…

É preferível a ataraxia

 

                                    

 

Que tempos são estes, os nossos?

Tempos de ostentar e de ter, de se exibir e de comprar, de se pavonear e de se vangloriar, de auto-engrandecimento e de apequenar o Outro, esse ente odiosamente “companheiro” de mundo. Tempos de se entupir de mercadorias e de guloseimas práticas, de cinema alienante e imbecilizante, de culto do corpo perfeito, de “música” medíocre e de novelas quadradas e (que paradoxo!) globais. Tempos de anular o Outro, de lhe negar respeito, de não lhe louvar as competências. De julgá-lo por qualquer coisa. Tempos de futricas: de quem está comendo quem ou dando para quem. Tempos de sair com o fácil, namorar o raso, transar com o superficial e gozar com o deus ou deusa da futilidade.

Tempos de parecer, de aparecer; de perecer em vida, de negar as essências, de subverter todos os valores (quais restam?), de fazer sacrifícios àquela grande entidade: a opinião alheia, que pertence (outro paradoxo!) àquele Outro tão subestimado, tão destituído de valor. E de valorização excessiva aos valores: o culto ao deus-Dinheiro. Tempos de se apegar às coisas, de ser escravo dos bens mais que materiais: as matérias-primas do viver.

E o verdadeiro viver? Para quê? Quem pensa nisso?

Viver, hoje, é uma forma de consumo. Eu consumo, logo existo (logo desisto de ser eu mesmo).

Este texto é inútil e ridículo!

Por que…

… eu tenho que conviver comigo mesmo? O meu “eu” resume-se a isso com o qual estou tão acostumado, ou é apenas a ponta de um iceberg: é tão-só a manifestação restrita de um fenômeno maior, mais amplo e imensurável? Trago em mim outros “eus” mais toleráveis?

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Gente, juro que não bebo nem consumo nada ilegal a não ser meus devaneios…

 

Ao som de Thelonious Genial Monk, Functional

Seriam os shoppings templos do maligno?

      Detesto shopping centers. Tudo é tão falso ali! Mas reconheço que se trata de um excelente laboratório para se observar e estudar esses seres estranhos que somos nós, os humanos, a “humanada”, como diz meu compadre Sérgio, do MÁSCARAS ÓBVIAS, blog aí do lado.

     Quando entro em um desses microcosmos da vaidade e superficialidade humanas, tenho necessidade de sair dali rapidinho. Exceção de quando estou no cinema.

     Que tipo de fobia é essa?

     O sorriso de plástico das pessoas. A necessidade de ver e ser visto. A vontade de ostentação. De parecer bem-sucedido. Lindo. Perfeito. Moderno. Em suma: a nobreza.

     Mas, para aqueles que vêem o “invisível”, que captam o “inescrutável”; para aquelas mentes enfermas que não se enquadram no espírito de manada, tudo é falso, oco, despropositado.

     Estaria eu me tornando um misantropo?

AO MEU CARO AMIGO SÉRGIO FELLINI HITCHCOCK TRUFFAUT ANTONIONI PONTES, UMA CONTESTAÇÃO ENTRE CAMARADAS

     Tomar partido é um ato de coragem.
     Vamos esclarecer as coisas: a palavra “partido”, como você sabe, etimologicamente, já traz embutido seu significado: é a “parte”, a fração de um todo. Desse modo, tomar parte por um partido (trocadilho esclarecedor) significa defender, lutar (usando dos meios racionais) por um conjunto de idéias. Concordo com a opinião de que a paixão, seja a política, seja a religiosa, seja de que espécie for, por ser paixão, (com exceção daquela entre os amantes) por subestimar o aspecto racional das coisas, é sim condenável. E é condenável pelo fato de não levar em conta o outro, “fechar” os olhos para o contraditório etc. Impulsividade obtusa, portanto, é ausência de critérios, é colocar os sentimentos acima da razão.

    Mas isso não quer dizer que TODOS que defendam um partido político, uma crença religiosa, uma causa, que se empolguem com seu candidato, que mostrem suas convicções políticas de forma aberta e não temerosa, sejam destituídos de massa cinzenta e ajam passionalmente, insanamente, como numa manada. De forma alguma!

    Acredito que ter predileção por um partido político, por uma agremiação de futebol (guardadas as devidas proporções), não é necessariamente um ato de burrice. Cômodo (não obstante ser um direito de qualquer um) é se colocar numa pretensa neutralidade pseudo-intelectual. Meu caro Sérgio, investigador das coisas do mundo, sugiro-lhe humildemente que no escopo das suas elucubrações esteja também essa questão: a capacidade do bicho homo sapiens de se levar por seus (dele) ideais e de ter a humildade e a capacidade de discernimento de enxergar até onde seus argumentos na defesa daquelas crenças podem ir.

    Quanto à política, desde Aristóteles, passando por Max Weber, Karl Marx e outros “monstros”, ela continua a mesma, pois é um reflexo de nossa vinculação com o mundo. Se nestes pobres trópicos ela é balcão de negócios, trampolim para medíocres, feira de vaidades e outras degenerações do mesmo quilate, está dentro de nossas obrigações vigiar nossos políticos, condená-los quando for o caso. E se eles, na sua grande maioria, não estão cagando, desculpe pelo termo, pela grande maioria dos mortais que estamos do outro lado do balcão, com toda certeza não é com a postura pseudo-blasé, pseudo-cética, poser, que vamos aperfeiçoar nossa política. Se os políticos são o que são, é fruto da absoluta falta de dados, de conhecimento, de informações da maioria semi-alfabetizada (e também da alfabetizada) deste país. É por causa de pessoas que mantêm o seguinte critério que chegamos ao fundo do poço.: “Meu voto vai para Fulano, porque ele roubou menos do que o Beltrano e os cupinchas dele (do Beltra) que não fizeram nada e querem voltar…”. Contra tal “argumento” há contestação?

    Não se pede que todos leiam jornais todos os dias, o que seria utópico. Mas que informação é uma arma poderosa isso é um fato incontestável.E temos que acabar com aquela mentalidade de bacharel que envolve o conceito de política de muitos neste país: “Ah, política é pros homens lá de Brasília, eu quero mais é cuidar da minha vida. Eles lá que se entendam. Tô pouco me lixando!”.

    É por essa sacralização, e também pela praga do personalismo (“Doutô Fulano é quem vai botar ordem no pedaço!”) que nossa vida política é solapada, que a situação está assim.Antes de se resignar, agir.

    Antes de cruzar os braços, procurar se informar. Informando-se, cobrar deles. Há meios para isso hoje. Esses meios de pressão estão aí, para quem for atrás.

    Obviamente há outras carências mais urgentes neste país de famintos. Famintos de comida, educação, cultura, afetos, respeito etc etc… Mas isso não é desculpa para se prolongar ao infinito a questão da falta de informação, esse apartheid que há no Brasil.

    Concordo totalmente com sua opinião, meu caro Sérgio, quanto ao desgaste semântico de palavras como “povo”, “amor”, “pátria”, entre outras muitas muletas lingüísticas, tão astutamente usadas por espertalhões em campanhas eleitorais.

    Outra constestação: agir independentemente, numa sociedade constituída, tem limites. Precisamos nos organizar, não podemos crer cegamente num voluntarismo ingênuo.

     Concordo quanto à total descrença num Messias político. Igualmente acredito que certezas, sejam de que quilate for, são sempre estúpidas (até essa???). Mas, todavia, contudo, no entanto, porém… é da natureza humana, é intrínseco à nossa constituição intelectual lançar mão delas. Que o façamos, porém, menos dogmaticamente, isso tem meu total aval.

    Quanto à suposta mentira de ambos os candidatos, atribuo sua opinião há um certo simplismo generalizante, compreensível. Se você quiser mesmo estar tão seguro, (não repare a sinceridade deste humilde datilógrafo) até para seu próprio esclarecimento, recomendo que … se informe um tantinho só. Você verá quem é o mentiroso mor, crônico, contumaz entre os dois.

    Sei também que cada um responde por suas atitudes. O candidato Geraldo Alckmin, humano que é, obviamente é falho. Mas toda generalização tem limites… O “ouvir dizer”, expressar opiniões de natureza política com base em “impressões” é meio arriscado. Sobretudo para aqueles que investigam o mundo…Talvez assim, com as devidas informações, sua “neurastenia política”, meu caríssimo Sérgio, passe ao largo.

    E bom debate para você. E escolha bem os “mentirosos”, viu?

    E obrigado pela participação.
    Depois trocamos umas idéias sobre “Jules et Jim”, do Truffaut, que acabei de ver…

    Quanto aos outros participantes, leitores deste blog, mesmo aqueles que não se manifestam, que são a maioria, todos são bem-vindos e responsáveis pelo grande número de acessos diários. Merci beacoup!

    Um abraço

    Elienai

Depressão? Impressão sua!

   Sono, desânimo, tristeza esparsa, preguiça de existir, tédio, melancolia, perda dos ideais, apatia, indiferença, falta de interesse geral, aversão ao barulho, a vozes, a futilidades. Desamparo, sensação de extravio existencial. Tem como, disso, sair algo proveitoso? O que nos leva a isso? Falta de uma alimentação balanceada? De sono? De amor? É azar? Sina? Mandinga? Quizumba? Urucubaca? Mal-olhado? Encosto? Desequilíbrio da química cerebral? De neurotransmissores? Gripe encubada? Problemas gástricos? Proximidade da morte?  Ou seria resfriado? Crise existencial? Excesso de sensibilidade? Falta de Deus? Obra do demônio? Isso, aliás, mata? Isso é excesso de pruridos taxonômicos? Ou fruto da falta de nichos, categorias e impossibilidade apenas de discernimento? De que gaveta conceitual sacar tal sentimento? E tal sentimento é passível de ser categorizado em definições estanques? Não seria uma contradição em termos limitar o que sempre muda, transforma-se, altera-se, varia, metamorfoseia-se? Onde tudo isso vai parar? Se é que pára o que se move. Não tinha a intenção de ir tão a fundo. Juro.

Ao ver-te, vejo-me. Ou: a eterna busca da imagem própria nos outros

      Fenômeno dos dias atuais, praga da modernidade, conseqüência da exacerbação e da extensão do próprio umbigo, meta dos incluídos, quimera dos excluídos, Santo Graal dos fanáticos por celebridades, é de fácil constatação. O sujeito, ou a “sujeita”, em tudo o que faz, em tudo o que pretende fazer, em tudo o que fará, quer se ver “refletido” e “refletida” no outro. Quer um espelho no outro. Quer que tudo e todos sejam apenas e tão-somente um reflexo, uma extensão e um prolongamento de si mesmos. Pode-se argumentar que tal “prática” existe desde que o mundo é mundo. Concordo. Mas acho que a situação degringolou, tomou ares de pandemia. Se procuro uma “tribo”, ela tem que ter elementos de mim. Se freqüento “panelinhas”, é porque elas trazem em sua essência algo que está entre os elementos que me definem. Os amigos e amigas apenas o são pelo fato de serem antes sósias meus, gêmeos e caras-metades meus e minhas. Até aí nada que seja o fim do mundo. O problema está na intensidade que tal transferência se dá. O amor, por exemplo. Claro, isso não é novidade para ninguém: ama-se porque o objeto de nosso amor é, na verdade, alguém que traz em si algo que me diz respeito. (Falemos claramente: amamos na verdade a nós mesmos). Mas, reconheçamos: sempre foi assim. Ok. Mas recomendo fazer uma análise do seu objeto de afeição: tem um dedo seu ali, há uma partícula de você ali, há um elemento que lhe diz respeito ali. Não custa nada. É fácil.
      Mas voltando ao assunto. Quase todos nós, hoje em dia, queiramos ou não, chafurdamos nessa busca pela própria imagem nos outros. Ou seja, pela desesperada procura da ressonância de nosso próprio eu no mundo, nos outros. Quem estaria imune a esse “distúrbio” seriam os magnânimos, os desinteressados deste mundo, os abnegados convictos. Sim. Eles e elas existem!  Palmas para esse povo!
      No entanto, faça uma análise (palavrinha mágica) e você constatará tal fenônemo. Muito provavelmente a abnegação passa longe de você. Sorry…