Que música é essa que me entra pelos poros, invade minha corrente sanguínea e chega ao meu cérebro com a potência de mil megatons, onde minhas pobres células cerebrais, indefesas, apenas vêem tudo ali se transformar? Que música é essa que me leva a sonhar acordado, a ver o que não pode ser visto, a sentir o que está além de qualquer intelecção ou explicação que se queira cietífica? Que música é essa que me faz visualizar coisas que minha mente passa a criar ali, no ato? Que bendito som é esse que traz uma onda de energia, um não sei o quê de auto-satisfação, de potência até então latente? De quem são essas melodias, esses contrapontos, essa escala caleidoscópica de matizes sonoros os mais diversos mas que, não obstante toda a “cacofonia” ali, é de uma ordem mística, sobrenatural, transcendental, seja o que for?
É Bach, é ele!
São seus Concertos de Brandenburgo. É o que ouço neste instante e me fazem criar este texto que vai assim mesmo, sem revisão e que com certeza está muito, mas muito aquém da sensação de se ouvir um gênio que não pertence a nenhum credo, nenhuma raça, a não ser a humana e que, 259 anos após, está vivo, aqui mesmo neste meu computador, nestes fones de ouvido.
In Bach I trust!
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Um mestre inigualável.
Conversando com uma colega ontem, num papo bem informal, ela me disse que cada vez mais se apaixona pelo universo literário de Anton Tchékhov (ou Chekhov). Sim, relendo a noite passada, de forma aleatória, alguns de seus contos que estão reunidos em O Beijo e Outras Historias (Editora 34) e Um Homem Extraordinário e Outras Histórias (L&PM), entendo facilmente o porquê dessa predileção.
Os contos O Beijo, A Enfermaria n° 6 e O Homem no Estojo, entre outros, mostram, já no primeiro parágrafo, o ritmo, a criação da “atmosfera” e as pinceladas certeiras que sinalizam todo o desenvolvimento da narrativa.
Tchékhov, passado tanto tempo, é um autor fundamental na arte do conto. Sem falar em suas peças. Relê-lo é um alento e tanto em tempos de tantos “experimentalismos” estéreis, vaidades exacerbadas e insensibilidade para captar as vivências interiores de personagens mergulhados no mundo áspero.
Para dor de cotovelo, de cabeça, depressão, espinha de peixe, bloqueio criativo, epilepsia, azia, gastrite, melancolia, hérnia de disco, sarampo, hemorróidas, sinusite, vazio existencial, dor nas costas, para curar fossa sentimental, enfim, para tudo que você pensar, Stevie Ray Vaughan é tiro e queda.
PRIDE AND JOY, 1982.
Homenagem a um mestre: Tchekhov.
Anton Tchekhov (ou Chekhov), um dos mestres supremos do conto e do teatro (Estou lendo seus contos. Ou melhor, estou os devorando!), em dois vídeos. Há anos o admiro. Nessa minha fase “russa” (Tarkovski, Tolstoi para ler aqui), estou resgatando essa admiração já antiga.
Eis os vídeos:
“Once in a while”, com Dizzy e Milt Jackson.
Ele foi, junto com Armstrong, o mais carismático dos grandes do jazz. O mais funny jazzman que por aqui já passou. Na época do bebop, ao qual a geração beat renderia muitas homenagens, ele era visto como o mais intelectualizado músico de então. Virtuose, polivante, um piadista nato, Dizzy Gillespie, o “Tonto”, as bochechas mais famosas do planeta, o parceiro até a morte de Charlie Parker, o mais boa praça de todos os jazzistas, era também um lírico, claro. Aqui, tocando ao lado de Milt Jackson, um cara que sintetiza a imagem do vibrafone, este instrumento subestimado mas belíssimo e “plástico”. Uma faixa no fim da qual, após a viagem que nos propõe, nos faz ter que aceitar: o mundo tem jeito!
Uma relíquia do festival de Montreux de 1977.
Nicholas Payton tocando “Bag´s groove”, de Milt Jackson…
… um dos meus standards preferidos. Combina bem com este happy hour…
Uma raridade de ‘Trane!
John Coltrane live
Nove anos sem Stanley Kubrick

Há exatos nove anos (sim, a data não é redonda mas não poderia deixar passar em brancas nuvens tal efeméride) morria o mais “literato” dos diretores de cinema. Nunca houve alguém como ele. Praticamente todos os seus filmes foram adaptações de obras literárias. Seu perfeccionismo virou lenda. Sua versatilidade e ousadia, sua marca registrada.
Eis um link para um vídeo do Jornal das Dez do dia em que ele morreu:
Que falta ele faz! Basta assistir Laranja Mecânica, Lolita, 2001: Uma Odisséia no Espaço para se ter uma noção de sua grandeza.
Stan Getz
We’ll be together again – Stan Getz 1983 -
Você descobre que o mundo tem jeito ao ouvir isso.
Dexter Gordon, o mais carismático de todos os saxofonistas de jazz.
Dexter Gordon, Loose Walk
Thelonious, o enviado de outro planeta.
Thelonious Monk – Epistrophy
The Genius and his band
Thelonious Monk – Evidence – Japan, 1963
Para quem não acredita em perfeição.
Jane Monheit – Some Other Time
Ela não é apenas linda de doer. Ela tem uma voz e uma presença deslumbrantes.
Jane Monheit já está no panteão das grandes cantoras de jazz.
Ah, ela já é casadíssima. Com um músico muito talentoso, dizem.
Um dia triste: morreu Henri Salvador (1917-2008). Sua música traz o pulsar da vida, o movimento das marés e a brisa.
Lá se foi um autodidata da música. O incansável e carismático cantor francês Henri Salvador, nascido na Guiana Francesa, de voz sussurrada e cuja música tem cheiro de mar, lembra a brisa e nos transporta a dimensões ternas, morreu ontem aos 90 anos. Amante da Bossa Nova, ele transitou por vários estilos, desde a chanson francesa ao jazz. A esse último, dedicou muito de seu repertório, talvez uma forma de prestar homenagem aos seus ídolos na juventude, os mestres Duke Ellington e Louis Armstrong.
Ouçam Henri Salvador e vocês terão contato com um cantor de voz aveludada e sua música suave, sofisticada sem ser hermética e que irá os remeter a terras longínquas e ensolaradas.
Ele chegou a morar no Rio de Janeiro por uns anos e foi um grande intérprete da nossa querida Bossa Nova.
Eu o descobri em 2003, por intermédio de um amigo, Lucas, a quem agradeço imensamente por me ter apresentado a esse poeta das coisas simples.
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Ao som do seu álbum CHAMBRE AVEC VUE, sobretudo a faixa-título e Jazz Meditérranée, Faire Des Ronds Dans L’Eau, Vagabond, Il Fait Dimanche e a estonteante Le Fou de La Reine (com a diva Françoise Hardy).
Madeleine Peyroux
A primeira vez que a ouvi, há mais de dez anos, na querida Eldorado FM, fiquei estupefato com a semelhança com a Billie.
Com o tempo, deixaram de a comparar com a Lady Day (a maior cantora de jazz de todos os tempos e minha diva eterna). Hoje, ela se firmou como uma cantora de nível altíssimo e um timbre único.
Dizzy, sempre Dizzy!
Dizzy Gillespie – A Night in Tunisia. Cannes, 1958
Como forma de compensar os dois ou três leitores (as) pela estultice do post anterior, encerro o dia com o mais extrovertido e inteligente músico de jazz: Dizzy, sempre Dizzy!
Aqui ele toca, muitíssimo bem-acompanhado, seu mais famoso trabalho. E quantas saudades do Jazz Concert, com Carlos Conde, da Rádio Cultura! Era o tema do programa. Foi lá que pra mim (e acho que pra muita gente) tudo começou, há 14 anos…
Uma diva brasileira do jazz. Eis nossa Diana Krall!
Eliane Elias. Este é seu nome. Paulistana de nascimento, nova-iorquina há mais de vinte anos, pianista de jazz, cantora e compositora. Talentosíssima, linda e uma praticamente desconhecida em seu país de origem. Em tempos de pobreza sonora, saber que temos uma brasileira que há anos faz sucesso lá fora como jazzista, é um prazer imenso conhecer seu trabalho. E que prazer! Tem aquele dito popular que diz que “santo de casa não faz milagre” (ou algo do gênero: sou uma negação pra essas citações populares). Dito e feito. No caso de Eliane, é algo que chega a ser uma afronta. Sua música é refinada, para poucos, claro. Mas daí a receber todo esse menosprezo por aqui chega a ser asqueroso. Sim, ela não rebola. Sim, ela não mostra seu corpo. Sim, ela é uma mulher que se sobressai por puro talento e arte. Tá explicado.
A primeira vez que ouvi falar dela foi no saudoso Jazz Concert, da Rádio Cultura FM de SP, apresentado pelo já falecido Carlos Conde. Estou ouvindo algumas faixas do seu novo trabalho: SOMETHING FOR YOU: ELIANE ELIAS SINGS AND PLAYS BILL EVANS, no qual ela faz um tributo ao genial Evans. Sensacional! Ela captou toda a sutileza de um dos pianistas de jazz mais eruditos e sutis de todos os tempos.
Para quem quer ouvir algo que não agrida os ouvidos e ainda por cima enriquecer sua discoteca com música de primeiríssima qualidade, ouça Eliane Elias.
Quanto ao termo “diva”, apesar de começar a enfraquecer, de tão usado, acho apropriadíssimo no caso dessa artista.
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Ao som de Eliane Elias, “You and the night and the music” .
Herbie Hancock e Oscar Peterson num “duelo” ao piano, tocando “Billie´s Bounce”
Num encontro de titãs, Peterson e Hancock “duelam” ao piano sobre o tema “Billie´s Bounce”. O grande vencedor: nós mesmos!
Tributo a OSCAR PETERSON
Oscar Peterson, no início dos anos 60, na Holanda, interpretando GOODBYE. O adeus de (a) um gigante da música.
Uma raridade. O famoso Oscar Peterson Trio, com Peterson ao piano, Ray Brown ao baixo e Ed Thigpen à bateria. A sensibilidade e maestria de um artista na mais pura acepção do termo.
Oscar Peterson, virtuose do piano jazzístico, foi convidado para a jam session dos gigantes.
Outro artista do jazz foi chamado pelos deuses para tocar na jam session eterna. Cada vez mais os grandes nomes desse estilo musical nos deixam, nos empobrecem um pouco mais. Desta vez, foi o genial e carismático pianista e compositor canadense Oscar Peterson, 82 anos.
Virtuose, mago do improviso, eclético até a alma, a velocidade com que ele tocava os solos era algo arrebatador, de um suingue inacreditável, enfeitiçador, mesmerizante. Nas baladas, igualmente, nos levava (e levará ainda por muitos e muitos anos!) a um grau de fruição musical inigualável. Gravou com quase todos os grandes do jazz, de Charlie Parker a Ella Fitzgerald, de Billie Holiday a Roy Eldridge. Sempre de um carisma e de uma alegria, vigor e espontaneidade que eram sua marca registrada. Venceu 8 prêmios Grammy. Ganhou a maior honraria que um civil canadense poderia receber e se tornou a primeira pessoa em vida a ser estampada em selo de cartas em seu país.
Lá se foi um dos últimos titãs do jazz.
Sua presença física se foi, mas sua arte está registrada e eternizada conosco.
R.I.P., Peterson!
Oscar Peterson – 1925-2007
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Ao som do álbum AN OSCAR PETERSON CHRISTMAS, as pacíficas e ternas White Christmas, Have Yourself a Merry Little Christmas e Christmas Waltz
Morre um gigante do jazz
Morreu hoje, aos 83 anos, o lendário baterista de jazz Max Roach. Sua importância no jazz equivale aos grandes: Miles, Coltrane, Dizzy e tantos outros. Com sua morte, mais um titã do jazz vai para o Olimpo, menos remanescentes há daquela fase áurea do ritmo de New Orleans, hoje patrimônio mundial.
Abaixo, o início de um texto de apresentação do artista retirado do site e-jazz. Para quem quiser ler o resto, há no final um link que remete à página original.
Filho de uma cantora de gospel, Maxwell Lemuel Roach começou a tocar bateria aos dez anos e depois estudou na Manhattan School of Music. Aos dezoito anos já tocava no Monroe’s Uptown House (onde era o baterista titular) e no Minton’s Playhouse – vale dizer, estava no lugar certo e na hora certa para tomar parte em um grande acontecimento: o nascimento do bebop. Roach teve a oportunidade de acompanhar quase todos os principais nomes do novo estilo; em particular, nos anos seguintes fartou-se de tocar com Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Kenny Clarke e Bud Powell, e participou de inúmeras gravações antológicas na segunda metade dos anos 40. Em 1952, fundou a Debut Records juntamente com Charles Mingus, e em 1953 fez sua primeira sessão de gravação como líder. Em 1954 formou com o trompetista Clifford Brown um quinteto que se tornaria uma referência dentro do hard bop, infelizmente sofrendo um forte baque com a morte prematura de Brown em 1956. (Kenny Dorham então assumiria o lugar de Brown.)
Mais sobre Roach pode-se ler aqui.
30 anos hoje sem o fabuloso "jeca" de East Tupelo, Mississippi, que soube como ninguém captar o "zeitgeist", o espírito de um tempo… por um bom tempo.
Sabem, ele foi meu primeiro ídolo quando já nem mais existia na face da terra. E a gente nunca esquece nosso primeiro ídolo… No dia em que morreu, há exatos trinta anos, eu mal sabia a diferença entre noite e dia… Aos 10 anos, tímido como uma donzela da Idade Média, de maneira surpreendente, eu perdia a vergonha ao “imitá-lo” com uma vassoura na hora do recreio, pernas requebradas, enrolando algo muito remotamente parecido com a língua inglesa numa Tutti Frutti sofrível, para surpresa de alguns, apoio de uns poucos e vaias mais que merecidas da maioria. Influência de uns vizinhos que tinham um tio (o meu próprio também era elvismaníaco, mas não teve o dom de me iniciar na tal arte) doente pelo outrora jeca da provincianíssima localidade de East Tupelo, onde o futuro rei do rock cismava em dirigir seu caminhãozinho e cantar na igreja evangélica até que o destino lhe bateu na porta. Sua vida sempre me fascinou, sua música, com exceção da última fase ultra-brega e piegas, sobretudo.
O texto que segue é de minha autoria e ganhou, há 4 anos, uma competição da Revista Bravo! em parceria com o UOL que consistia em responder o porquê do filho da dona Gladys ser tão importante para a cultura pop.
O que ganhei? Nada mais nada menos que uma caixa com 5 cd´s importados chamada The King of Rock’n'roll: The Complete 50′s Masters.
Eis a tal frase:
Porque soube como ninguém sacar o potencial de vibração e energia rejuvenescedora da música, usando, de forma pioneira, o ritmo e a sonoridade para expressar uma constante do ser humano: a necessidade irreprimível de diversão.
É. Não é nem um primor de genialidade. Mas os caras gostaram. Imagine o nível das outras!!!
Estivesse vivo hoje, aos 72 anos, o que faria ele?
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Ao som de … Tutti Frutti, com o próprio. Ah, memória… Os micos do passado…
O universo de Anton Tchékhov em apenas um clique.

Um dos magos do gênero conto, mestre como o francês Guy de Maupassant e nosso Machado, Anton Pavlovitch Tchékhov, em alfabeto cirílico, “Анто́н Па́влович Че́хов”, que fez muito pelo teatro, era um prolífico autor que nunca, aliás, perdia o controle de sua arte. Viveu no final do século dezenove e morreu há 103 anos. Seus contos, que tanta influência tiveram sobre muitos autores do século passado e ainda atualmente, estão disponíveis neste link, para quem lê em inglês: http://chekhov2.tripod.com/
É uma bela oportunidade para quem ainda não conhece esse autor cujas muitas histórias praticamente sem enredo fazem com que o mundo interior das personagens se sobressaia.
Além de servirem de inspiração para aqueles que almejamos a carreira literária. Mesmo que ilusoriamente.
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Ao som da Sinfonia nº 3 – POLONESA em ré maior, op.29, de Piotr Tchaikovsky
Tributo a Chet Baker
Hoje faz 19 anos que Chesney Henry Baker, mais conhecido como Chet Baker, ou apenas Chet, para os “íntimos”, foi encontrado morto numa ruela de Amsterdã, Holanda. Seu corpo despencara de um prédio de hotel. Até hoje, quase duas décadas, ainda é um mistério se ele se jogara ou havia sido jogado. Um mistério, tudo indica, que nunca será solucionado.
Mas o que de fato ficará incontestavelmente registrado para a posteridade é que aquele artista, trompetista e cantor, o homem que transpirava jazz mas se tornara um ícone pop, será sempre ouvido muitas e muitas vezes, sobretudo embalará as noites de apaixonados, de solitários e seus cigarros e copos de uísques, de pensadores insones, de escritores sem talento, de seres em descompasso com o mundo, de perdidos existenciais em muitas noites estreladas e de lua cheia. Aquele homem, que havia acabado de dar o último suspiro, durante sua vida dedicada à música transcendental e lírica inspirara muitos tímidos a declarar seu amor, muitas mulheres a vivenciar suas paixões. Suas notas eram (e serão por muito tempo!) o mito de Cupido em uma nova versão!
Sua derrota para as drogas, que lhe minaram as forças para tocar seu trompete e lhe deram asas de cera, é bem conhecida. Elas lhe proporcionaram um vôo de Ícaro, no qual ele veio a encontrar o fim. Nunca mais as notas de veludo, nunca mais a voz sussurrante, nunca mais as canções tiradas do fundo da alma…
Nunca mais? Graças à tecnologia, temos, quantas vezes quisermos, ao nosso dispor, a arte de Chet Baker, o artista que viveu à beira do abismo. A personificação, transposta para a arte, de nossa natureza ambígua, paradoxal. Ele era a síntese daquilo que temos no âmago de nós mesmos: uma junção de forças autodestrutivas e ao mesmo tempo proclamadoras da vida, o impulso de morte e o de vida.
Ouvir Chet Baker, apreciar sua arte, é nos conhecer um pouco mais a cada dia.
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Ao som de Chet Baker, o próprio: My Funny Valentine
Ecce homo?
Para quem assistiu ao filme DIAS DE NIETZSCHE EM TURIM, de Júlio Bressane, as imagens de arquivo do filósofo alemão não serão novidade. Para quem não as conhece, são de causar espanto. Ele morreu em 1900. Naquela época, o cinema tinha apenas 5 anos. Fica a pergunta: seria uma montagem? Se sim, se não, não importa: ver uma personalidade brilhante, um ser genial que viveu há tantos anos, e sobretudo no estado vegetativo em que a doença o obrigou a viver, aquela outrora mente-dinamite, ousada, verdadeira metralhadora de conceitos, é triste e a mim me causou uma sensação estranhíssima. Quanto a Freud e Einstein, são imagens bem mais conhecidas. Mas muito menos “fortes”.
Eu trocaria 2007 por 1958. Ou: saudade do que não se viveu.
Miles, o mago, e Coltrane, o feiticeiro, juntos em SO WHAT
Eis um vídeo raríssimo do ano da graça de 1958. Ano em que o mundo cultural era chacoalhado pelo cinema francês, com “Acossado”, de Godard, pela literatura de Kerouac e Cia, pelos movimentos de contestação, etc (e bota etc nisso!). Obviamente o jazz não ficaria a dever: foi o ano de KIND OF BLUE, o mais importante álbum de jazz de todos os tempos. Sob a batuta do deus Miles Davis (que “pegou” ninguém menos que a diva Jeanne Moreau!!!), a genialidade no nascedouro de John Coltrane, Bill Evans, Wynton Kelly, Paul Chambers e Cannonball Aderley, o conceito musical foi ampliado. O jazz nunca mais seria o mesmo.
Revolucionário é pouco. Aqueles sujeitos que se reuniram numa igreja antiga e desativada se eternizaram. E eis-nos aqui, quase cinqüenta anos depois, prestando uma homenagem a eles. Aqui podemos vislumbrar os Einsteins do jazz em ação, na faixa que abre o KIND OF BLUE: “SO WHAT”.
As palavras aqui não dizem nada: abra os olhos e os ouvidos e deixe se levar por esse som mágico e inacreditável.
Que ano, aquele!
A tempo: não se trata de saudosismo de quem viveu aquela época. Para começo de conversa, ainda haveriam de passar mais de 15 anos para este humilde escriba que vos fala vir a este vale de lágrimas.
Sabe aquele sentimento de nostalgia de uma época em que não se viveu? Pois é, é por aí…
E que eu trocaria 2007 por 1958, ah, eu trocaria!
E ele morreu aos 34 apenas…
Revi hoje “Bird“, a vida de Charlie “Bird” Parker, com a direção de Clint Eastwood, filme de 1988. Juntamente com “Por Volta da Meia-Noite” (1986), cuja cópia de ambos vejo com freqüência, trata-se de uma cinebiografia marcante. A genialidade, a grandeza de Parker, sem esquecer sua personalidade multifacetada, seu envolvimento fatal com as drogas, mas, sobretudo, sua música, seu virtuosismo: está tudo ali, sem sensacionalismos ou cafonices. Após assistir ao filme, coloquei para rodar no computador toda minha coleção de Bird que tenho. Totalizam quase 15 horas, um mergulho substancial na obra desse criador do bebop, junto com o inigualável Dizzy Gillespie.
As notas que ele, Parker, tirava do sax alto, eram o equivalente, em termos artísticos, à música de Bach, Beethoven, Chopin. Porém nunca, até então, a música ocidental tinha visto e ouvido aquilo: arte instantânea, com a rapidez e um senso musical simplesmente geniais.
E pensar que, quando ele morreu, em meados da década de 50, após reinventar e dar novos parâmetros à musica, o médico-legista, ao analisar seu corpo, disse que ele tinha a fisionomia de um homem de mais de 60… E ele tinha apenas 34 anos!
Charlie Parker, o Einstein do Jazz. Se há uma definição para a palavra “gênio”, esse artista ímpar é a verdadeira personificação do termo.
Tivesse ele vivido mais vinte anos…
Chet Baker: notas epifânicas
Gravado em Tóquio, em 1987, um ano antes de sua morte, em 13 de maio de 1988, este vídeo mostra a força lírica e ao mesmo tempo a fragilidade física de um artista que era, então, apenas a sombra do que foi. Derrotado pelas drogas, sobretudo pela heroína, Chet Baker teve uma vida trágica. Aqui o vemos quase sem fôlego para soprar seu instrumento. Apesar disso, ainda era capaz de fazer poesia sonora, lírica, transcendental.
Ele interpreta “Ellen and David”, de Charlie Haden. Chet divide a ribalta com Michel Grailler ao piano e Riccardo Del F. ao baixo.
É algo triste, mas ao mesmo tempo celestial, quase epifânico.
A arte de John Coltrane e uma reflexão acerca da estultice louçã
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Ouvir John Coltrane é renovar continuamente nossos conceitos do que é sonoridade inventiva. É se deparar com uma riqueza musical altamente criativa e genial. Você percebe as nuances, as fugas do lugar-comum, a mente privilegiada de um artista em forma musical, borbulhando, at work. Houvesse uma escala literária para julgar outras artes, Coltrane sem dúvida estaria no mesmo patamar que James Joyce. A linguagem musical daquele jazzista é um mergulho profundo, como o do irlandês, num mundo de arabescos, labirintos e caleidoscópios expressivos.
E olha que tem gente que acha “esses caras que tocam jazz no sax um bando de ultrapassados músicos de baile da terceira idade“. Foi o que ouvi ao “provocar” um roqueiro esses dias. Ele tem por volta de vinte anos. Ao perguntar o que ele achava do jazz, ele me saiu com a frase acima. Há argumentos, pergunto, contra a estultice? A idade, claro, não é critério para nada. Há pessoas que conseguem, precocemente, ter uma maior sensibilidade para as artes. Mas são poucas.
Ah, para se entender de arte tem que se ter acesso a ela, não se limitar a estereótipos…
Mas, aos vinte, ainda tem-se o direito de ir com a manada.
Ao som, claro, de Coltrane, Acknowledgement (live) e Pursuance (live)