Reflexões em torno da inconstância humana.

Ah, a inconstância humana, essa velha bruxa. Uma bruxa muito da constante, diga-se. Sempre a nos lembrar da finitude de tudo.

Mas se não fosse ela, nos veríamos a todo momento presos a um só objetivo, a uma só ideia, a uma só concepção de mundo. Graças a ela, temos o progresso. E todo progresso nasce da necessidade de transcender um dado conhecimento. De aperfeiçoar e melhorar aquilo que já existe. Sobretudo aquilo que existe de forma precária.

Demos todas as vivas a ela por nos colocar constantemente em um ponto de não-aceitação daquilo que tentam nos impor como limites. A ela prestemos honrarias por nos jogar a todo momento na selva do mundo, onde temos que vagar, perambular e nos movimentar para que nos desviemos dos alçapões e armadilhas que nascem da sensação de que tudo já se viu, de que tudo já foi conhecido, e vivido, e sentido.

É a inconstância humana que nos faz mover. Que nos ejeta, à força, do casulo que vamos estabelecendo pela vida afora. Que nos tira da crosta, das teias de aranha que vão surgindo pelos cantos esquecidos de nossa vida interior. Hábitos que vão sendo sedimentados. Lembranças que vão formando camadas. Camadas que se tornam mais espessas. Mais espessas e por isso mesmo limitadoras de nossa, vá lá, caminhada. Sei que essa metáfora da caminhada já está gasta. Mas fiquemos com ela.

É por causa da inconstância que toda vida, a mais infeliz, a mais monótona de todas, ainda sim tem uma margem de manobra, de potencial mobilidade. A inconstância abre frestas e veredas. Graças a ela nossos caminhos (de novo!) não são tomados por um matagal sem fim…

Louvemos todos a inconstância, antes de maldizê-la. Graças a ela as nuances de cor são captadas. Passos são dados. Novos vislumbres e clarões riscam o céu mais carregado de nuvens.

Ah, a inconstância humana, essa fada. Sempre a nos lembrar da infinitude de tudo.

E chega de metáforas, demasiadamente constantes neste texto…

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Ao som de Cartola, “O mundo é um moinho”.

O potencial benigno dos grandes micos.

Há fases da vida da gente nas quais, quando agora delas nos lembramos, parece termos vivido sob algum tipo de “feitiço”. Ou pior ainda: parece que estávamos então meio loucos ou quase isso. É quando, hoje constrangidos, reconhecemos, ainda que não muito à vontade, a nós próprios. Pessoas com as quais tivemos algum contato, ou com as quais agimos tão idiotamente, frases que um dia dizemos, coisas que outrora fizemos, enfim, é um monte de lembranças e associações de ideias passadas que, vistas agora, quando estamos supostamente mais calejados e mais experientes, quando temos um tipo de clarão a iluminar aqueles momentos sombrios, nos dão a impressão de que, falando popularmente, pagamos um belo de um mico. Ok,  sei que não há como voltar ao passado e apagar todas nossas asneiras e coisas do tipo. Temos, isso sim, que assimilar tudo aquilo e lá dentro de nós transformar em água para o moinho que move nossas vidas. Sim, sei muito bem disso. “Então por que diabos você está reclamando?”, perguntaria o leitor. Acontece que não estou reclamando. Apenas externei uma idiossincrasia que todos têm. Uns de forma mais intensa do que outros.

Mas tudo não deixa de ser muito esclarecedor do quão complexos somos todos. E da natureza múltipla que nos forma. Quando toda essa variedade de experiências – sejam ou não motivo de desconforto para nós atualmente -acabar, é sinal de que a vida está por um triz, não é?

“Viver é muito perigoso”: ainda bem!

Guimarães Rosa, em sua famosa frase "Viver é muito perigoso", expressou em poucas palavras todo o pavor não declarado que nos ronda o espírito desde que por aqui chegamos.  Tal medo é uma constante em nossa psique. Cada um, contudo, foge dele da maneira que mais lhe convém.
Nos dias de informação nas pontas dos dedos em que vivemos, disseminou-se enormemente a sensação de que nunca antes nossa espécie foi tão exposta aos perigos inerentes ao viver. Ledo engano. Sempre a vida aqui nesta casca de noz chamada Terra esteve por um fio. Por mais que sejamos bombardeados com notícias horripilantes, a verdade é que o medo que tentamos escamotear e inconscientemente é mantido no mais profundo de nós mesmo é o mesmo que nossos ancestrais sentiam. E eles não tinham todo o aparato que temos hoje para justamente colocar num nível confortável a incômoda sensação de que estamos no fio da navalha, de que somos vulneráveis em nossa falsa certeza de sermos, por ter atingido um grau tal de sofisticação tecnológica, indestrutíveis. Eles expressavam seus receios de forma mais clara, mais intensa.
Levando em consideração todo esse histórico, não é de surpreender que com o tempo fôssemos criando, cada um a sua maneira, mecanismos de defesa para tentar amenizar nossos temores atávicos. Desse modo, se formos analisar nosso próprio comportamento, descobriremos que somos feitos em grande parte daquela teia de zonas de suposta proteção. Ou seja, o que define muito do que somos são todas aquelas mitologias pessoais que todos trazem em seu íntimo mais protegido, mais interno. Mitologias essas que tentam escamotear o quão frágeis somos. Religiões, utopias, crenças, interesses variados, tudo isso, no fundo, é um clamor àquilo que desejamos que fosse real mas sabemos que nunca será: a perenidade e a invulnerabilidade.
Alguns conseguem levar suas vidas de forma a não romper por demais com a realidade. Em outras palavras: alguns são bem-sucedidos em ter suas crenças escamoteadoras daquela consciência de vulnerabilidade. Crenças essas que não distorcem o mundo como ele de fato é, ou a percepção do que o mundo e seus perigos são o que de fato são. Mas a grande maioria, no afã louco de se blindarem contra a percepção da própria fragilidade, exageram e criam suas utopias, suas religiões, suas válvulas de escape etc, que só distorcem a realidade, que só criam mundos de fantasia. 
Acho que o grande drama que nos ronda hoje, como espécie, é justamente esse: o de encontrar um meio-termo que nos proporcione exatamente o equilíbrio entre duas concepções distintas mas que podem ser integradas: de um lado, podemos ter nossas concepções que nos mantêm vivos com a convicção de que, independentemente de nossa fragilidade intrínseca, podemos e devemos seguir neste mundo hostil e, de outro lado, a consciência de nossa transitoriedade, precariedade e, sempre ela, de nossa fragilidade. Essa consciência, esse saber, essa percepção de nossas limitações, exatamente eles podem, num movimento dialético, nos proporcionar a convicção de que podemos, sim, podemos!, criar, inventar, mudar, aperfeiçoar nossa visão de mundo e, principalmente, saber que a vida, justamente por ser limitada, deve ser uma constante busca pela plenitude e pela ousadia no querer.
Nossos mais profundos medos podem estar em nosso favor. Com eles, uns criam arte, outros, impérios. Outros, pelo contrário, se deixam paralisar por eles.
É bom saber-se mortal. Isso nos dá uma dimensão nova e, paradoxalmente, reconfortante. Antes a certeza da finitude, que nos abre horizontes, do que as ilusões de uma vida plena de quimeras, que nos paralisa e nos afasta do real.

Analisar a própria vida? Mande-me um e-mail sobre isso: estarei analisando a viabilidade técnica e a utilidade prática disso no longo prazo na minha vida profissional e corporativa. Obrigado.

A vida não analisada não merece ser vivida.

 

está a frase de um grande filósofo grego que cito de memória.

Nos tempos superficiais em que vivemos, na era das especializações em que estamos, toda perda de tempo, afirma-se por aí, é prejuízo monetário. Tudo que não nos lance no turbilhão do mundo produtivo há de ser eliminado. Aquilo tudo que não nos traga dividendos, promoções no trabalho, um upgrade no currículo, que nos “agregue” alguma coisa em termos produtivos, tudo isso tem de ser evitado, varrido do mapa, extinto da face da terra.

Desse modo, os momentos em que saímos dessa correria toda e nos fazemos perguntas que não tenham nada a ver com aquilo tudo acima mencionado são vistos como a confissão clara de que somos ou perdedores, ou inaptos para a vida nestes tempos pragmáticos.

Analisar a própria vida? Quem hoje se dá a tal empreitada? Quem lá quer saber de pesar as próprias ações, corrigir rumos, repensar em novas bases críticas a vida que é levada, as atitudes que são tomadas, as escolhas que são feitas? Quem quer ter como base de suas ações uma linha de conduta coerente? Quem se dá ao luxo de desperdiçar o precio$o tempo para esquadrinhar e retificar o próprio viver, enriquecendo-se com ideias de filósofos e artistas mortos de tempos idos? Por que as ciências humanas, sobretudo em bolsões de tecnologia e saber prático e instrumental, perdem cada vez mais espaço? Por que muitos se contentam com sua área de atuação e só com ela acham que estão equipados para a mais complexa das ações a que seres pensantes podem se entregar: o viver? Por que cada vez menos pessoas têm um interesse múltiplo por artes e humanidades? E se falando em arte, por que o cinema atual e mais lucrativo é aquele que só se preocupa com os efeitos especiais cada vez mais deslumbrantes para mascarar a pobreza de histórias cada vez mais rasas e maniqueístas? Estou pensando em AVATAR, que não troco por um Antonioni de começo de carreira. Por que o cinema que se propõe a vasculhar a vida humana e o homem em busca de um significado, por exemplo, é mais raro de ter um público que realmente por ele se interesse? Por que tão poucos não se preocupam em ler, pesquisar, refletir sobre aquilo que se assiste, aprender com os mestres do passado, em vez de se dizerem cinéfilos só porque assistiram a quase todos os filmes do cinemão dos últimos 25 anos?

Não há uma resposta só. Mas uma grande candidata a fechar a questão, ou pelo menos dar uma explicação que cubra quase toda a matéria em tela seria essa: Porque quase ninguém vai além dos estereótipos difundidos. Porque para isso tempo dispendido em pesquisas, em reflexão e aprendizado é necessário. Porque pensar é incômodo. Ler é uma tarefa árdua, para muitos, falemos claramente. Fazer comparações e ir a fundo em conceitos exige esforço, paixão e muita, muita força de vontade, expressão essa tão gasta hoje em dia.

E não analisar a própria vida então é uma ação que está inserida no Zeitgeist da modernidade, a saber: o apelo ao mais fácil, a tudo aquilo que nos poupe tempo, o Tempo, essa entidade cruel que exige de nós mais do que um culto. Exige de nós nossa vida, nossa capacidade reflexiva e crítica e, como se não bastasse tudo isso, nossas almas também.

Pensar hoje, quando muito, só o pensar prático, apenas aquilo que nos abra as portas do mercado de trabalho, que nos amplie a network, que, em suma, nos torne cada vez mais parecidos com robôs programados para nunca ir além, nunca ver além do que todos veem, do que todos pensam.

Analisar a própria vida? Isso me trará aquela promoção? Não? Então esquece: não tenho tempo a perder. E não se fala mais nisso.

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Ao som de Madeleine Peyroux, Instead

O mundo está cada vez mais chato.

Chato é tudo que é plano, que não tem níveis, desníveis, planícies, altos nem tampouco baixos. É a planificação da mesmice, que segue numa paisagem a perder de vista em que nada se sobressai. Daí, a palavra passou para a linguagem cotidiana e serve para se referir a tudo que é tedioso, sem vida, sem sobressaltos, sem novidades, sem estímulo etc.

E nunca esteve tão chato viver neste mundo planificado e uniformizado. Não que alguma vez a vida neste planeta tenha sido assim uma experiência permanentemente instigante. Não acho que se deve ter nostalgia por tempos remotos, sobretudo aqueles nos quais não estávamos presentes. Mas ainda acho que, para um homem das savanas, a planície era muito mais escarpada do que para o homem do século 21.

O que acontece é que nos dias que correm, a sensação de mesmice prevalece. Independentemente da sua conta bancária ou do seu cartão do Bolsa Família, a impressão que se tem é que o tédio anda sempre à espreita, pronto para nos prender em seus tentáculos e nos devorar. Para fugir desse monstro onipresente, buscam-se grandes doses de emoções efêmeras, de atitudes que tentam, em vão, nos dar a ilusãozinha nossa de cada dia de que o mundo é um grande barato, de que a vida neste planeta fadado à derrocada é algo que compensa as frustrações e reveses às quais estamos todos inexoravelmente condenados.
Parece que tudo é uma grande corrida em busca da Terra Prometida das emoções baratas. Baratas pois são inevitavelmente transitórias, ilusórias e verdadeiros simulacros de "felicidade".
Tudo chega até nós facilmente. Na ponta dos dedos. Está tudo ali, naquele site, naquela igreja, naquele livro, naquele guru, naquele cargo, naquela faculdade, naquela viagem, naquele carro, naquela casa, naquele apartamento, naquela mulher, naquele homem. Essa sensação de que só nos resta um passo, uma ousadia, nos faz cegos. Nos hipnotiza. Nos arrebata a visão do todo. A rapidez de tudo que acontece, a avalanche de informações inúteis, de ocorrências corriqueiras que acabam potencializadas pela mídia, de seres vazios e rasos que se tornam imbecis celebridades, tudo isso nos faz ter a sensação que estamos sempre aquém. Que estamos incompletos enquanto não nos arremessarmos rumo à obtenção daquilo que supostamente nos traria – ilusoriamente, claro – a sensação de completude.

Só assim para termos uma ilha de fortes emoções cercada pelo tédio. Só assim para esquecermos por um momento a frustração que vem justamente dessa nossa cada vez maior dependência – exatamente como outra dependência, a química – de sucedâneos para aquele grande e almejado estado de regozijo total. Vamos nos trucidando, nos desrespeitando um ao outro, nos fechando em nós mesmos para fugir do tédio. Daí a achar que a vida está, de forma geral, algo cada vez mais tedioso, é um passo. E isso justamente por sabermos, mesmo num nível inconsciente, que aquilo do qual dependemos para nos manter "vivos" está assentado em bases falsas, independentemente daquilo que nos cerca e que constitui nossa fachada social, nossa máscara, nossa persona.

Viver neste mundo célere, de relacionamentos superficiais, de gente robotizada, de eternos insatisfeitos – pois perdemos a noção do geral, aquela que nos proporciona a certeza de que tudo está interligado, e não fragmentado, como somos condicionados a pensar -, de busca desenfreada por emoções fortes, de dependência cada vez maior às exterioridades plenas de significações sociais, é de fato um porre. Tudo está às claras. Mistério? Coisa de místicos e malucos. Preocupação com o espiritual? Coisa de religiosos… O que conta mesmo hoje em dia é, segundo as concepções que nos guiam, criar ilhas da fantasia em série. É nos autoenganarmos ininterruptamente. Uma vez expirado o prazo de validade dessas ilusões, o que resta é só o vazio, o tédio. Como é impossível ter essas ilusões o tempo todo, ou, melhor, como é inviável haver uma contínua equivalência entre nossas quimeras pessoais (infinitas) e aquilo que as fundamente na vida real (finito), o que prevalece são os momentos de pura frustração, de perda do ânimo para a vida. Afinal, ânimo para quê se esta minha vida deixa a desejar? Se apesar de tudo o que tenho, de tudo que ostento por aí, sei, lá no âmago de mim mesmo, que tudo está calcado em coisas contigentes e passíveis de serem de mim surrupiadas?
Eis aí a gênese dessa sensação de tédio absoluto. Que nada mais é, afinal, do que nossa rendição, de nossa capitulação, de nosso processo de falimento. Moral, mas efetivo e desalentador como tudo que já faliu.
O mundo (entenda-se: a experiência humana) está cada vez mais chato. Mais padronizado. Mais superficial. Mais célere. Somos continuamente condicionados. Teleguiados. Cobaias num grande laboratório de lavagem cerebral. Emburrecemos globalmente. Nos deslumbramos com as maravilhas do mundo moderno e nos esquecemos de que interiormente estamos cada vez mais embotados, paupérrimos, fossilizados e tolhidos em nossa potencialidade imensa de seres pensantes.
Feliz chateação para você.

Pensamentos em off (ou nem tão off assim).

Reflexão a propósito de nada.

Não tem jeito. Sempre teremos que conviver com pessoas que nunca perderão a oportunidade de nos rotular, de nos simplificar, de nos enquadrar em tal ou qual categoria. E jamais elas terão como nos conhecer como de fato somos. Sobretudo pessoas de mente estreita sempre estarão em nosso caminho. Contudo, longe de nos acharmos seres especiais, que vivem numa espécie de ilha da fantasia, numa torre de marfim, sempre distante das imperfeições dos que nos desagradam de certa forma e que nos cercam, é importante ver o que há em nós, em nossas atitudes, que vemos, imputamos e condenamos no outro.
De forma que negar às pessoas a chance para que elas sejam sempre mais do que nós enxergamos delas, não aceitar o fato de que elas são dotadas de uma complexidade, pois todos o são, é uma atitude aética e egocêntrica.

Conceder ao outro aquilo que queremos a nós mesmos é a negação mesma de toda mesquinharia, de todo apego ao próprio umbigo.

Da potencialidade de tudo que existe e está por existir.

    Tantas coisas a serem ditas e que ainda insistem em permanecer naquele limbo do inexprimível. Tantas perguntas a serem feitas e que continuam sem ter quem as formule corretamente. Tantos mistérios a serem desfeitos, tantas coisas a serem aprendidas, tantos sentimentos a serem esquadrinhados, tantos mitos a serem desmentidos, tantas verdades ainda não reconhecidas, tantas palavras a serem criadas, tantas outras a serem descartadas. Tantas epifanias ainda ocultas, tantos clichês a serem implodidos, tantos sustos a serem tomados, tantas obras de arte a serem criadas, tantas outras a serem fruídas, outras tantas a serem descobertas, tantos livros a serem lidos, tantos filmes a serem apreciados, tantas decepções a serem evitadas, tantas mentiras a serem desmentidas, tantas desilusões a serem desfeitas no nascedouro, tantos crimes a serem evitados, tantos equívocos a serem adiados, tantas mancadas a serem postergadas, tantos adiamentos a serem adiantados, tantos rostos a serem conhecidos, e vozes, e corpos, e abraços, e braços, e olhos, e tantas outras coisas, mil outras coisas, a ainda serem feitas e vistas e entendidas e aprendidas e apreciadas sob o sol e a lua e as estrelas, que só de pensar dá o que pensar.

Das mil faces da tragédia.

    

    A ideia de que a tragédia tem que ser necessariamente algo grandioso, épico, está tão impregnada no inconsciente coletivo que, por qualquer motivo besta, usamos a palavra “trágico” e seus familiares semânticos com um misto de espanto compatível com a grandiosidade suposta de um acontecimento que nos deixe meio nocauteados.

    Na verdade, a vida é composta de micro-tragédias, tão pequeninas que, na correria nossa de todo dia, passam quase despercebidas. Uma árvore moribunda é uma tragédia. Assim como um sonho desfeito. Igualmente um amor que se torna um desamor. Outra coisa não é o abandono dos projetos pessoais, nem as mil maneiras de se morrer para aquilo que há pouco nos era valioso, nem o choque entre a realidade brutal com os ideais agora ridicularizados, nem a percepção do efeito deletério do tempo sobre nossas falsas certezas de perenidade, nem a não-equivalência entre o que vivemos interiormente e o que se passa fora de nós, nem a nossa absurda transitoriedade, nem o choque com os outros, nem um rol infindável de outras minúsculas tragédias de que é composta a vida.

    Mas o que mais é fascinante é se dar conta de que, se delas, as tragédias, somos cercados, temos nelas também, potencialmente, uma chance de nos superarmos, de irmos além de nós mesmos, de nos projetarmos para um além de nossa suposta “natureza humana”; é a oportunidade que temos de nos engrandecermos perante o atrito com aquelas tragédias e delas retirarmos não uma lição de vida nem tampouco todo aquele papo clichê de “crescer com as adversidades”.

    Nada disso. Ou não necessariamente.

    É aproveitarmos as brechas que nos são abertas, verdadeiras frestas através das quais há, em cada momento “trágico”, seja de que intensidade for, uma nova janela de vivências repletas de possibilidades. A cada “tragédia” – aqui no sentido multifacetado -, a teia infindável do possível, do acaso, do contingente, do que seja lá o que for que nos recoloca perante o mar do possível. Que nos franqueia um universo de potencialidades, de caminhos que se bifurcam, de paralelas que se cruzam, de linhas tortuosas que se juntam e se tornam por fim um retilíneo caminho. A via das possibilidades infinitas. Caminho esse que pode ter um início lá naquela “tragédia” longínqua no tempo ou no espaço de nossas vidas atribuladas.

    E ainda há quem ache que tragédias só as de Ésquilo, Sófocles e Shakespeare…

Ode ao efêmero.

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Do dicionário Houaiss:

Etimologia: gr. ephêmeros,os,on ‘que dura um dia’, pelo lat. ephemèron,i ‘lírio branco, silvestre; animal que nasce e morre no mesmo dia’; nas acp. de angios, pelo lat.cien. gên. Ephemerum (1754); f.hist. 1712 ephemero

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Ainda bem que há o efêmero.

Fôssemos eternos, a certeza do fruir contínuo e do sofrer sem fim seria uma espécie de buraco negro a sugar toda nossa energia, nossa psique. A planificação de tudo, nem um ponto alto, nem tampouco declives, uma paisagem  que se tornaria inóspita de tanto tédio: seria o que teríamos.

Os vaivéns da vida só nos fortalecem. É aquilo que nos sustenta, e até mesmo nos derruba às vezes, mas, paradoxalmente, serve como uma forma de nos proporcionar momentos de “enfrentamento”  individual: aquela hora em que constatamos o quanto temos que nos livrar de padrões de conduta e de hábitos que vêm da ilusão de perenidade, de continuidade. É quando o auto-engano se despedaça, perde terreno:  uma forma de catarse, como queiram.  Guardadas as devidas proporções, não é nada não é nada equivale a ler Sófocles! Ou os estóicos.  

Naquela montanha-russa que tanto nos ajuda a nos constituir, na interiorização das vivências mais diversas (e no fundo todas elas têm uma ressonância considerável, por mais que achemos erroneamente que nem tudo nos “toque” num primeiro momento), temos uma oportunidade valiosa para corrigir planos de vôo, revermos comportamentos, redimensionarmos o próprio “eu” em contato com aquelas coisas que nos afetam e sobretudo podermos nos desvencilhar da falsa ideia de que o gozo contínuo seria o Santo Graal do ser humano. Ainda há quem duvide do valor de tudo isso?

Antes o real efêmero que falsas eternidades.

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Atenção, si vous plaît! Este texto, que não é de autoajuda, pode ser resultado dos prenúncios de um resfriado (ou gripe? ou peste bubônica? ou toxoplasmose? ou “só porque vos vi, minha Senhora?“, ou aquela pizza que não me caiu bem? ou seja lá o que for!).
Observações: 1º) que não seja o vírus da gripe suína. 2º) que seja um “inofensivo” resfriado muito do efêmero!
O resto é espirro.

Pensata 2 (com uma pequena correção).

Ideias esparsas.

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O desejo humano de transcender a própria limitação, de ir sempre além do que as circunstâncias “determinam”, está na raiz da arte. Ou da religiosidade.

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Querer sempre ir mais distante do que se pode ir, não se contentar com o que “se é”, eis o que explica a necessidade da arte. Somos todos aparelhados -, digamos assim, somos, mais precisamente, intrinsecamente receptivos a ela – para fruir a arte. O  problema é que para fruí-la no sentido pleno da palavra, precisamos, paradoxalmente, de um envolvimento, de uma dedicação a ela. Numa palavra: expor-se a ela. Arte é pra todos, pelos num plano teórico. Mas apenas para aqueles que não se envolvem com ela só no plano de uma reação meramente epidérmica ou a usam para autoelogio pueril… 

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O artigo do Daniel Piza ontem no Estadão (“Cultura Desbotada”) foi de uma precisão cirúrgica. Ali ele mostrou o quanto a procura por uma cultura geral hoje em dia é algo desvalorizado. Em tempos de especialistas em dados assuntos, ler os clássicos é uma coisa quase vista como fora de moda. Ele cita Bergman e Fellini, caras que tiveram um envolvimento amoroso com as artes, que justamente por serem homens em busca de um conhecimento multifacetado, tornaram-se universais.

Outro fator que emperraria essa busca generalista é o excesso de estímulos audivisuais que só tiram a possibilidade de concentração, de maturação das ideias.

Comentário pessoal: ser profundo, ou ao menos não se limitar ao nível superficial das coisas, é quase visto como coisa de seres pernósticos hoje em dia.

Ler, fugir da balbúrdia e do caos de informações de nossa época, recorrer aos grandes autores, sobretudo temas relacionados à história e, principalmente, não se ater a áreas estanques do pensamento ou da tua área de atuação, é o que de fato nos torna seres pensantes, não meros repetidores de lugares-comuns.

Voltando ao artigo do Piza. Ele discorre sobre outros temas próximos com uma pertinência incrível. Não é à toa que ele é considerado um dos maiores jornalistas culturais deste país em atividade. Sérgio Augusto é outro cujos textos leio com prazer redobrado. Minha inteligência agrade. A sua também, leitor.

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 ”Ser culto é pertencer a todos os tempos e lugares, sem deixar de pertencer a seu tempo e lugar“.
Octávio Paz
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Há certos autores cujas frases ficam em nossa cabeça e começam a gerar outras ideias. Essa do Octávio Paz, por exemplo. São verdadeiras rampas de lançamento, com perdão da péssima comparação, para outros voos conceituais.  Em filmes também gosto de pescar tais enunciados.

Em Waking Life (2001), a mais inteligente das animações que já assisti, e que aliás é filosofia pura, há, entre outras, frases assim. Cada vez que vejo esse longa, algumas me “sequestram” e me proporcionam muitos daqueles voos a que me referi acima.

Esta, por exemplo: “There’s only one instant, and it’s right now. And it’s eternity“. Caramba, Clarice Lispector assinaria isso embaixo ao retratar suas personagens em momentos de pura epifania.

Dá (muito) o que pensar…

Pensata.

Ideia para ser desenvolvida:

Se a vontade humana é infinita, e o entendimento é finito, se aquilo que desejamos pode assumir todas as formas e com a intensidade que for, e se nossa capacidade para obter o que tanto queremos é limitada, estamos, então, fadados a viver num imenso gap, num constante déficit. Para preencher essa lacuna é que se comete tudo o que há de condenável neste mundo.

Da nossa solidão intrínseca, Dia dos Namorados e Tchaikóvsky para um possível fundo musical…

Véspera de Dia dos Namorados. A essa hora, presentes já comprados e devidamente embrulhados, cartões igualmente prontos, por este país afora muita gente só tem na cabeça uma coisa: o ser amado. Ou, vá lá, o que significa “amado” em tempos de superficialidades e intere$$e. Mas não. Não sejamos tão mesquinhos e nada… amados. Suspendemos o ceticismo por um breve instante – não mais do que 15 segundos!- e nos concentremos no seguinte: na suposta autenticidade daquilo que muitos estariam sentindo: enfim um dia para que se oficialize, se chancele, torne existente uma relação entre dois seres humanos.

 Ufa… Certo: uma vez que a muito custo a esse malabarismo conceitual nos tenhamos dedicado, passemos então para o oposto. Explico: se há aqueles que mal veem a hora de externar seus sentimentos mais sublimes para com outro alguém, há outros, não poucos, que estão, blasfêmia das blasfêmias!, sozinhos, sem ninguém, à margem de todo esse momento. Sim, eles existem! Eles e elas, claro!

Enquanto alguns desses seres inusitados – assim os chamemos carinhosamente – buscam de toda forma, até o último minuto, numa espécie de deadline dos que não se conformam em ficar sozinhos nesse dia que se aproxima, alguém, alguma coisa que se aproxime da vaga ideia – qualquer um (a) serve! – de “cara metade” -, outros, estóicos por natureza, não estão nem aí, nem lá – leia-se “motel” – para tal efeméride. Esses não pautam seus sentimentos pelo calendário, não se preocupam em estar sozinhos, em se deparar com a sua mais absoluta solidão existencial, sentimental, cósmica, seja lá o que for…

Estar só. Ser só. No fundo somos e estamos todos e todas. Com namorada (o), com noiva (o), com quem quer que seja. E estar só, estar consciente dessa condição intrínseca a nós mesmos, saber encarar essa verdade sem traumas e sem a vã ”necessidade” de ter que seguir uma mera data publicitária, sem ter que demonstrar um “sentimento” sazonal, é uma das mais sensacionais sensações. Tudo bem: há casais que não “comemoram” tal dia, obviamente. Mas mesmo esses enamorados são obrigados a, queiram ou não, “manter as aparências”.

Sim, este post é para todos aqueles que curtem, que vivenciam cada instante da sua necessária solidão. Que sabem que o destino que nos cabe viver só nos diz respeito, no fim das contas. E essa constatação não é uma ode ao mais mesquinho e reles solipsismo, à mais deslavada sensação de autossuficiência e egoísmo. Nada disso!

Quem sabe ali, onde menos se espera, ”pinte” aquela pessoa. Se surgir ou não, dediquemo-nos mesmo assim à nossa solidão. Nossa grande companheira. Sem neuras. Sem ressentimentos. Sem “falsos sentimentos” (Uma contradição em termos, tal expressão, não?).

Estamos sozinhos e desamparados frente ao destino. É assim. Sempre será. Mesmo com alguém do teu lado num jantar de gala de um dia 12 de junho qualquer.

A tempo: cada um demonstra ou não seus sentimentos, segue ou não uma data comercial, etc.  O que aqui se critica é a fogueira da inquisição a que são jogados aqueles que pensam diferente. É o tratamento dispensado àqueles e àquelas que não veem o fim do mundo em passar mais um 12/6 a sós. O espírito de manada, sejamos claros.

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Ao som de Tchaikóvsky, Concerto para piano e orquestra nº 1, Allegro no tropo e molto maestoso (uma ótima sugestão para tocar num quarto todo espelhado de motel neste dia 12. Só não se esqueçam de me conceder os créditos pela dica, tá? Bons divertimentos!)

Ciclotimia, ciclotímico…

O barato de ser um soi-disant ciclotímico (e não, thank Goodness!, um bipolar) é que se consegue ter, de tempos em tempos, uma visão mais matizada e menos estereotipada de tudo. Algo assim como ver as mesmas coisas sob novos prismas. Nessa gangorra, e graças a ela, estamos sempre nos renovando, nos reciclando e, mais importante, nos reinventando. Fosse eu religioso, diria: uma benção! Como não sou, apenas afirmo: bem-aventuradas sejam as variações da química cerebral!

Variações em torno da palavra INTELECTUAL: quando os estereótipos prevalecem.

  Quanto mais uma palavra é usada de forma descuidada como marcadora/limitadora de identidades, mais ela se torna vaga e, assim, indefinida. Ou seja, mais distante fica um sentido preciso daquilo que se busca definir.
   Vejamos a palavra-muleta “intelectual”. O termo caiu no gosto popular e se desgastou. E, com essa acepção, já não expressa fatos nem limita com precisão sentidos: tornou-se um vocábulo carregado de lugares-comuns, clichês e estereótipos reducionistas (como é a maioria deles). Todos bem distantes do termo original.
   Segundo um significado difundido pelos quatro cantos do mundo, seja em que idioma for, o conceito em questão é calcado, como veremos, em ideias feitas, preconceitos (não necessariamente pejorativos, notem bem) e estereótipos, fato esse superdimensionado por filmes, comerciais, novelas, entre outros “difusores” conceituais.

   O típico “intelectual” seria, de acordo com esse uso gasto e esvaziado de verdadeiro sentido, uma pessoa com “ares de inteligente”, “com cara de CDF”, “com ‘jeito’ de culto”, “super estudado”, “fino”, muito provavelmente “viajado”, “de gosto ‘podre’ de chique”, “muito bem articulado”, “moderninho”, “de gostos refinados”, “com aqueles óculos e ar compenetrado”, “transpirando cultura” e, claro, um “tantico avesso a badalações”.

   Um sentido almejado pois supostamente concederia um “status”. Qual? O de INTELECTUAL: uma sumidade no quesito Q.I. Um sábio que se destacaria da multidão da ralé humana.
   Como podemos constatar numa consulta a um dicionário, no caso, ao Houaiss, as definições:

Acepções
■ adjetivo de dois gêneros
1    relativo ao intelecto; mental, espiritual
Ex.: esforço i.
2    relativo ao exercício do intelecto ou que o requeira; em que a inteligência ou o raciocínio desempenham papel preponderante ou excessivo; cerebral, racional
Ex.: <dotes i.> <trabalho i.>
3    típico, próprio de intelectuais
Ex.: conversa i.
■ adjetivo e substantivo de dois gêneros (sXIV)
4    que ou aquele que vive predominantemente do intelecto, dedicando-se a atividades que requerem um emprego intelectual considerável
Ex.: <trabalhador i.> <alguns i. admitem não ter senso muito prático>
5    que ou aquele que demonstra gosto e interesse pronunciados pelas coisas da cultura, da literatura, das artes etc.
Ex.: é filho de (pais) i. e desde cedo conviveu com livros
6    que ou aquele que domina um campo de conhecimento intelectual ou que tem muita cultura geral; erudito, pensador, sábio
Ex.: manifesto dos i. do país contra a tortura

… não usam nenhum desses estereótipos, daqueles “pré-conceitos” acima mencionados.
   Quem se considera intelectual mesmo não declara sua condição por aí; não procura ou depende da chancela de quem quer que seja para ser o que é; não lança mão daquelas exterioridades superficiais para ser um “intelectual”.
   Vejam: uma pessoa pode não apresentar nenhum daqueles estereótipos e, mesmo assim, ter um interesse por artes, cultura, assuntos mais elaborados de um ponto de vista conceitual etc.
   “Ela tem uma cara de secretária“. “Nossa, ele tem um jeitão de médico, não tem?“. “Uau, a nova namorada do sortudo tem cara de atriz pornô“. “Puxa, seu pai tem cara de estivador“. “O presidente da Borúndia do Norte tem um quê de intelectual que a maioria das mulheres acha irresistível“.
   Os exemplos poderiam continuar numa longa lista. Poupemos o leitor de tal desfile de idiotices…
   Certa vez, alguém me disse “que ainda seria um INTELECTUAL“. Vejam: ele não disse que se esforçaria por ter/manter o interesse (se é que tivesse mesmo) pelo conhecimento, aquela chama constante que nos move a “fuçar” em tudo que desafie nosso intelecto e nos proporcione um prazer de valor incalculável. Não, nada disso. Sua meta era “se tornar um intelectual“, já antevendo o prazer que teria da posse de tal “honraria”. Foi uma das coisas mais tolas que já me disseram.
   Sem dúvida, aquele “intelectual em construção” faria melhor se se assumisse como ser racional, que pondera e analisa os fenômenos deste mundo. Coisa que qualquer um de nós, havendo esforço, pode fazer ao se adquirir os instrumentos necessários para tal: curiosidade, humildade, busca constante pelo saber e, claro, asco por “construções sociais prefabricadas“: os execráveis estereótipos, que não exige de nós nada além de uma deliciosa aceitação passiva (E, claro, sem ter necessariamente “cara de intelectual”. Sem óculos de tartaruga, por favor!).
    Ampliando a questão: o que somos é determinado de dentro para fora. Não são as exterioridades (meras construções apriorísticas, simples convenções baseadas em preconceitos) que nos determinam, que nos caracterizam enquanto seres individuais.

                              

Em busca da autenticidade mais que necessária.

   Quanto de autenticidade suportamos? Até onde aguentamos viver sem a zona de (falso) conforto da maioria das concepções que herdamos, que não foram por nós assimiladas sob o crivo de uma crítica racional, mas sim a nós transmitidas, assim como, mal comparando, nossos genes e características hereditárias?
   Eis perguntas que derivam dessas acima: o que é “nosso” para valer? Como podemos identificar nossas ideias autênticas, se é que temos alguma? De que maneira podemos sair do automatismo? Como nos livrarmos das camisas-de-força que nos são impostas desde tenra idade e que, se deixarmos, nos acompanharão pela vida afora, até “o fim dos tempos”?.
   Desfazer-se das ideias que herdamos sem nenhuma postura crítica, seja porque éramos por demais intelectualmente imaturos quando as adqurimos, seja por outro motivo, é uma tarefa de longo prazo que constantemente exige de nós um grande empenho.
   A reflexão crítica – uma dádiva acessível a todos que buscam sair da “superfície”, que se esforçam por se desvencilhar do “espírito de manada” e que não se deixam derrotar pela potência quase demolidora das opiniões feitas e assimiladas pela lei do menor esforço – nos remete à constatação de uma força que não sabíamos possuir, a um senso de discernimento que nos descortina novos vislumbres do mundo e da vida. O véu, a opacidade enganadora que nos turvava a visão, vai perdendo força. Se perdemos a falsa sensação de segurança, ganhamos em nitidez: nosso discernimento perante um sem-número de questões vai sendo reforçado. É como se acordássemos de um longo sono. É como se colocássemos óculos potentes, nós até pouco tempo atrás míopes pelas nossas falsas certezas, nossas tão estimadas meias-verdades, nossos preconceitos durante tanto tempo tão acalentados. 
   Que critérios usar para se chegar a essa total nova configuração de nossos pontos de vista? A essa filtragem tão revigorante de nossa vida psíquico-intelectual?
   Basta duvidar de tudo? O ceticismo radical seria o indicado? Ou um niilismo não menos potente? Ou ainda um cinismo explícito? Quem sabe, um pouco desses elementos. Com nenhum deles se sobressaindo. E sim usando cada um de seus elementos constitutivos com cuidado e critério.
   Estou mergulhado em tal processo que, como disse antes, é de longo prazo. Leia-se: para a vida toda. Afinal, sempre há algo por ser analisado, uma concepçãozinha aqui, outra acolá, que pode sim ser reavaliada com sangue-frio: vê-la em que ela se apóia, o que dela sucede, de onde ela veio, qual a relação dela com outras concepções. Enfim, é uma tarefa inglória, ingrata. Só diz respeito a você mesmo, num primeiro momento. Na verdade, uma questão aparentemente apenas de foro íntimo. Já a sua repercussão e seu resultado, a longo prazo, só podem ser mais que vantajosos na sua vida prática.
   Isto aqui não é autoajuda. É apenas uma mente funcionando: trabalhando, se voltando a si mesma, se autointerrogando, se autoanalisando, tentando se autoaperfeiçoar.
   “Livrar-se das ‘tranqueiras’ psíquicas sem o apoio de um analista? Sem chance!”, poderia argumentar o leitor mais desconfiado.
   Não sei você, mas estou conseguindo.
   Ah, sim. Nesse contexto de lixo conceitual, há também o processo de reciclagem, claro!
   Tudo pode ser revisto, reavaliado e, em grande parte, contestado racionalmente, com fundamentos.

    Em tempo: não se trata de pôr por terra toda e qualquer concepção ou visão de mundo que herdamos. Dessa maneira, os valores e princípios seriam fadados a ter uma existência efêmera. O que focalizo são aquelas ideias que muitas vezes nos limitam ou restringem a liberdade ou que nos cegam ou ainda aquelas em virtude das quais vemos o mundo ou preto ou branco. Nunca cinza. Nunca suas nuances. É a essas visões de mundo que me refiro.

"Eu era. Eu fui".

 

    Fragmentei-me.

   Minhas partes/partículas se dispersam ao sabor dos ventos errantes que findam acertando em seu propósito. Tento, em vão, desesperadamente, ir juntando, catando, tentando reuní-las. Esta. Aquela. Aquela outra. Todas me humilham em seus volteios. São várias. Que um dia já juntas estiveram e assim constituíram algo parecido com uma unidade. Agora, no presente desalentador do meu “eu” fragmentado, caótico, há apenas a tentativa insana de colar num utópico todo coeso essas peças soltas, desajustadas, órfãs, desgarradas e agora na plenitude de sua selvagem gratuidade, sua fortuita nova configuração.

   E elas vão, aos poucos, se desmaterializando, tal qual as partículas de poeira que dançam no facho da luz solar, entram numa zona de sombra e, uma a uma, ali ficam. Extingue-se a unidade que um dia houve.

   À medida que se dissolvem as outrora essenciais partes de mim mesmo, tudo se torna igualmente indefinido. Este rosto no espelho: decerto é de outro alguém! Esta voz, estes gestos incertos, estes pensamentos recorrentes, estas ânsias, estes receios, estas vozes interiores: sem dúvida algum estranho se alojou em mim!

   E outras ações dispara(ta)das por outro centro nervoso que não o meu de antigamente vão ganhando espaço e prevalecendo e tomando o lugar das outras, que, submissas, cedem lugar.

   As partículas, por fim, se perdem num imenso vácuo. Que tudo traga.

   Eu era. Eu fui.

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Ao som de John Coltrane, Impressions.

Contrariando os tempos atuais, cultivando a tristeza.

     

         Tristeza. Falar desse sentimento num mundo em que tudo gira em torno de uma constante busca pelas vivências excitantes, pelos risos desenfreados, pelas gargalhadas fáceis; mundo em que a maioria busca o Santo Graal, ou seja, a tal da Grande Felicidade; mundo em que todo e qualquer tipo de não-aceitação das regras e deveres implícitos que supostamente nos franqueiam as portas do Sucesso, ou pelo menos da aparência de se ser bem-sucedido, é visto como um crime de lesa-humanidade - buscar a tristeza e a sua irmã mais nova, a melancolia, é considerado uma afronta, uma insanidade típica dos mal-agradecidos, eles que vivem nos tempos áureos das parafernálias feitas na medida para supostamente nos afastarem das precárias condições que até pouco tempo atrás eram a regra! Algo típico de uma mente que nada contra a corrente – vai a rima assim mesmo -, em suma.

       Para alguns, entre os quais me incluo, não existiria a F e l i c i d a d e , apenas os momentos de puro gozo dos pequenos e grandes momentos que nos cabe viver.

       Parênteses fazem-se necessários, adiantando-se a possíveis contestações. Não se deixa de reconhecer aqui a utilidade imensa das tecnologias que realmente facilitam a nossa vida e muitas vezes a salvam. Nada disso. Opõe-se aqui, que fique bem claro, ao papel que muitos atribuem a essas tecnologias e parafernálias. Ou seja: nada contra os produtos do engenho humano, tudo contra a tolice e obtusidade de se crer que eles possam nos proporcionar uma dimensão maior da vida, de nos fazer melhores, de servirem, enfim, como uma seita. Seita essa que justificaria a vida, esta última servindo a eles, a esses produtos, e não o oposto.

       Mas ela, a tristeza, quando oriunda de um sentimento mais amplo de desalento, de uma atitude “filosófica” – não a Filosofia vinculada a um sistema amplo, mas uma constatação aguda do imenso descompasso entre o que é a realidade e o que poderia ser a realidade -, é uma aliada de valor incalculável. Não a tristeza estéril; não o sentimento de auto-compaixão; não o remoer as pequenas frustrações, amarguras, ressentimentos, enfim: não a fossa em que todos volta e meia nos achamos; não o conseqüente queixar-se eterno; não o cruzar dos braços e o esperar infinito pelo navio que irá nos levar deste porto de lamentos; não a tristeza covarde, típica daqueles que continuamente reclamam e não fazem nada para mudar a situação em que estão.

       É de um outro tipo de tristeza que se trata aqui. É aquela que se caracteriza pelo sem-número de impressões que nos tomam após termos chegado ao cume de uma imensa montanha, de um gigantesco abismo e termos vislumbrado, lá do alto, com toda a nitidez e precisão, o desenrolar da grande comédia das paixões humanas, das vaidades, das traições, do vitupério, da mesquinharia, da sordidez e todo o inesgotável rosário das imperfeições que tão bem caracterizam – e escravizam - o ser humano.

       Desse vislumbrar, portanto, inevitavelmente, o sentimento que vem é o da tristeza e melancolia mais profundas. É a constatação salutar de que se poderia, e se pode mesmo!, buscar o oposto de tudo isso, ainda que saibamos que a perfeição seja uma utopia. Buscar o possível dentro da imperfeição inerente à nossa condição.

       Tristeza não covarde. Melancolia que não se resigna.

       Um sentimento esparso e vago.

       Até porque a vida sem dor é uma farsa e uma contradição em termos. Mesmo que essa dor seja efêmera, ainda que recorrente. Dor essa que dura o suficiente para nos recolocar nos eixos.

       Há, pois, tristezas e tristezas.

       Dediquemo-nos à tristeza que nos redime de qualquer ideal de perfeição total, ainda que busque, como vimos, a melhora do que é precário. A tristeza que é uma lente invertida: que capta o imperfeito sob a aparência do perfeito.

       O regozijo, portanto, nem sempre é um bom companheiro. 

       Dediquemo-nos à essa tristeza. Ainda que paguemos com a acusação de sermos traidores dos tempos atuais.

       Contrariemos os canastrões atuais que se empanturram com a falsa idéia de Felicidade Absoluta, mas que na verdade chafurdam na patifaria desses tempos loucos e insensatos, que se conformam com a falsa aparência. Que não sabem – cegos que estão ao fruir o momento –  que por trás dessa casca de felicidade há o olho frio do precário.

       Antes a tristeza do que o auto-engano!

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Ao som do Álbum Branco, dos Beatles.

 

 

Experiência philozóphika com o Tempo: faça isso em casa (Texto revisto e corrigido!)

                             

     Ultimamente, tenho tido umas idéias meio obsessivas no que diz respeito à duração do tempo. Ou melhor, à duração subjetiva do tempo. Quer dizer: a forma com a qual ou a partir da qual mensuramos o tempo. Sim: esqueçamos por um momento (um minuto contado!) o tempo cronológico convencional… Claro, isso não é lá muito fácil, tal o grau da nossa dependência e condicionamento à coisa. Mas tentemos…

     É difícil, mas não impossivel. Bem, retirado aquele caráter universal e racionalmente cronológico do Tempo, que possibilitaria que Shakespeare e Paulo Coelho, Gretchen - sim, “aquela” – e Jane Austen, Latinogosh! - e Oscar Wilde trocassem informações triviais sobre as horas, se contemporâneos fossem (e excluídas igualmente, claro, todas as impossibilidades lógicas para tais encontros surreais) o que sobra é uma “corda” esticada, afrouxada e novamente retesada em função das nossas impressões subjetivas. Tudo bem: isso não é nenhuma novidade. Sem problemas: o que se busca aqui não é a originalidade, nem as luzes de ribalta. Mas, isso sim, umas “reflekissõezinhas” inofensivas e de meia-pataca…

     Sente-se num lugar escuro. Desligue aparelhos de qualquer espécie. Na escuridão, sentado (a) confortavelmente numa poltrona ou deitado (a) na cama, imagine um grande mar, imenso, a perder de vista! Nele, você é, distinto leitor, mimosa leitora, um barquinho a vagar, frágil e à deriva. Tudo ao redor é o Tempo. A extensão e as dimensões desse mar são determinadas pelas suas mais profundas idéias, impressões pela vida afora etc e tal. Quanto mais intensas, maior é a impressão (ilusão?) de que o Tempo se estende, se expande. Quanto menos intensas, mais exíguo ele é. Em outras palavras: o seu mar (Tempo subjetivo) se aproxima do horizonte ou se afasta dele à medida que você experimenta (ou não!) a vida com mais (ou menos!) empenho, intensidade, seja o que for.

      Após essa experiêncial altamente benéfica de relativização do Tempo (que Teoria da Relatividade o escambau!), você, distinto leitor e você, amável e coquete leitora, estão, junto com este que vos escreve, de mãos dadas, cabeça erguida, prontinhos para ir ao Juquiri, ao Pinel, enfim, à Casa de Orates do velho Machado.

     

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     Ao som de Ray Charles, Live at Montreux, 1997 (DVD).

A arte do desapego.

                    

 

       “Reivindica a propriedade do teu ser”.

                   Sêneca (4 a.C.? – 65 d.C.)

 

     Pela vida afora, vamos deixando um pouco de nós mesmos. À medida que vivenciamos as mais diversas experiências, desde as mais comezinhas até as mais grandiosas (sob nossos olhos, claro), inevitavelmente vamos nos soltando, nos desamarrando de um sem-número de coisas que até ontem, até esses dias, nos interessavam e nos tocavam tanto. Como sabemos, isso é natural e inevitável que aconteça. Imagine só se tudo estivesse conosco desde os tempos imemoriais de nós mesmos! Qual não seria a cacofonia de lembranças, vozes, rostos, momentos vividos, impressões, risos, raivas, e mais um monte de tranqueiras que teríamos que carregar!

    O desapego é uma forma de acelerar esse processo natural de nossa psique. É uma ajuda que damos ao nosso vasto mundo interior. É uma faxina intencional, um esvaziar de gavetas, uma ventilação de interiores, um espanar dos móveis e um descartar-se das bugingangas, de estorvos e outros “atrasos” que insistem em nos atravancar a vida interior e, conseqüentemente, a exterior, visto que nossas ações apenas refletem nosso universo subjetivo.

    Desapegar-se. Para isso é necessário ter critérios, obviamente. Para isso, é preciso ter todo um embasamento, toda uma justificativa subjacente à ação de desapegar-se. É ter filtros poderosos. É saber, em última instância, que por mais que nos cerquemos de todo um aparato (amigos, dinheiro, sucesso profissional, viagens de férias, bens etc), por mais que tentemos nos auto-enganar “achando” que alguém, ou algo (portanto, um agente externo), possa nos proporcionar a tão almejada “paz interior” (a Felicidade, para alguns), a verdade, a cruel e fria e áspera verdade (sobre a qual já escrevi aqui) é que não podemos confiar a quem quer que seja nossa vida. E isso pelo simples fato de sermos essencialmente solitários, queiramos ou não. Simples assim.

    Disso não se conclui, obviamente, que devemos nos pautar apenas por nossos critérios de absoluta necessidade intrínseca de nós mesmos. De forma alguma. Podemos e temos a obrigação de interagir, de nos relacionar, de não nos fechar em nós mesmos. O encarcerar-se em si próprio é uma outra forma de dependência.

    E a arte do desapego entra exatamente aí.

    Meu lema, que estou agora a adotar, e pretendo pôr em prática durante toda a minha vida: Não se apegar a nada em cuja hipotética ausência eu possa imaginar minha soberania sobre mim mesmo ameaçada.

 

A quadratura do círculo: céu de brigadeiro em tempos dionisíacos.

  Não sei bem por que abri o Windows Live Writer. Enquanto digito estas palavras, não tenho nada importante que justifique este post. Apenas me deu na veneta, sei lá. Terremoto na China, Cannes, Minc no Ministério outrora da Marina Silva, as eleições americanas começando a pegar fogo, o cerco fechando na terra de Fellini para os imigrantes clandestinos, o Banco Central prevendo uma inflação de 5% neste ano, enfim, tantas coisas acontecendo, tanta agitação, tanta celeuma!

  E no entanto…

  No entanto este post inútil. Estas palavras vazias de um sentido mais transcendente. Eu poderia escrever sobre os livros que estou lendo no momento (“Esculpir o Tempo“, do diretor russo Andrei Tarkovski, e Filmes – Ilha Deserta), o curso de francês para autodidatas que estou fazendo (“15 minutos“), os filmes que acabo de ver (de Fassbinder, Pasolini, Tarkovski, Sokurov, Allen Lynch), o que ando escrevendo às escondidas, meus projetos e tal. Mas não! Apenas este texto que tem, descubro agora!, a “função”, digamos assim, de expressar meu contentamento interior, minha calmaria interna, meu sossego subjetivo… Esses pequenos, frágeis e agradáveis momentos de que a vida é feita.

  Para um bipolar, é um momento e tanto para fogos de artíficio, este de placidez e energia canalizada para as coisas boas.

  Até que, sorrateira mas inescapavelmente, se aproxime a antítese disso tudo: as nuvens carregadas, que, se neste instante, neste céu de brigadeiro, nem dão sinais de aproximação, sei, “calejado” que estou, que elas tardam. Mas não falham.

  Enquanto isso, danem-se todos os pruridos. Minha cabeça é um caldeirão em ebulição.

  Meu lado dionisíaco me chama. O apolíneo, esse saiu de férias.

  Sou oito, sou oitenta.

 

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 Ao som de  “Raindrops Keep Fallin’ on My Head“, com B.J.Thomas.

Miragens.

    

               Sobre noites profundas, desertos e miragens   

                                       A Arthur Schopenhauer

 

 

Quando a noite se avoluma em sua espessura de silêncio; quando os sons mais ínfimos ganham em intensidade; quando o que era invisível à luz do sol se faz visível na escuridão sem fim; quando se aproxima mais um dia; quando, isolados da azáfama da vida, do corre-corre, das vozes altas, dos atropelos, das risadas, das demonstrações de cinismo, de vulgaridade, de lirismo, de abnegação, de falsidade, de firmeza de caráter, de falta dele; das buzinas, dos congestionamentos, das excitações da vigília; quando, neste instante, captamos toda nossa solidão existencial, toda nossa imensa e inescapável e mastodôntica solidão; quando nos deparamos com nosso eu mais profundo, nossa essência definidora (limitadora, afirmariam os deterministas), pois bem, neste momento epifânico por excelência, temos a certeza de que a vida é uma infindável busca por miragens. De que a vida é feita delas. De que somos eternos caminhantes de um inóspito e inclemente deserto no qual só, de tempos em tempos, nos defrontamos com imagens ilusórias criadas em sua maioria naquelas mesmas noites, aquelas que nos fazem descansar, cair no sono e sonhar. O sonhar que por sua vez gera outras imagens ilusórias prenhes de outras miragens. E assim, nessa constante fábrica de miragens-utopias-ilusões que são nossas noites, nossas ternas e esperadas noites, vamos todos, de miragem em miragem, dando voltas e voltas sem nunca, jamais, sairmos do mesmo lugar.

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So deep is the night,
No moon tonight,
No friendly star
To guide me with it´s light…”
(
Autor desconhecido)

 

Do baú – 2

 Texto originalmente publicado em 2 de agosto de 2006

 

 

                                     Da sarjeta existencial, com carinho

 

 

                                

  A sensação de estar preso a um lugar é uma das mais desagradáveis. Sabe aquele sentimento de que os vínculos com o lugar acabam sobrepujando toda e qualquer possibilidade de vislumbrar o horizonte? Ou, mais precisamente, e por outro enfoque: sabe quando a rotina, a mesmice, a eterna repetição de tudo, lugares, rostos, paisagens etc, tudo isso, todos esses elementos juntos proporcionam uma impressão de clausura, de morte em vida das expectativas? Pois estar vivo é estar à expectativa. Mas é como se elas, essas quimeras essenciais (sem as quais a vida neste planetinha obscuro, por parte do homo sapiens, regride às origens), fossem sumindo, uma a uma e se resumissem à eterna busca pela sobrevivência. E só! Ah, sensação limitadora, castradora de ideais, víbora do eterno retorno, não o do filósofo, mas o mais mesquinho, trivial e sem brilho mesmo. É duro viver em descompasso com o mundo. É desumano viver assim, com os ideais cansados pela espera da realização, quase puídos pelo indefectível adiamento, rotos pela aspereza da realidade, pela fricção com um mundo hostil, pela bárbara violência de todos os matizes, pela estreiteza de todos os naipes, pela, enfim, epifânica descoberta de que eles, os ideais, já trazem em si a miséria latente, em estado de potência e também o auto-engano e o iludir-se ad infinitum. Porque tudo enfada. Tudo cansa. Tudo envelhece. E fenece. E some.

Do baú – 1

Texto originalmente publicado em 3 de agosto de 2006

 

 

                              Depressão? Impressão sua!

 

 

  Sono, desânimo, tristeza esparsa, preguiça de existir, tédio, melancolia, perda dos ideais, apatia, indiferença, falta de interesse geral, aversão ao barulho, a vozes, a futilidades. Desamparo, sensação de extravio existencial. Tem como, disso, sair algo proveitoso? O que nos leva a isso? Falta de uma alimentação balanceada? De sono? De amor? É azar? Sina? Mandinga? Quizumba? Urucubaca? Mal-olhado? Encosto? Desequilíbrio da química cerebral? De neurotransmissores? Gripe encubada? Problemas gástricos? Proximidade da morte?  Ou seria resfriado? Crise existencial? Excesso de sensibilidade? Falta de Deus? Obra do demônio? Isso, aliás, mata? Isso é excesso de pruridos taxonômicos? Ou fruto da falta de nichos, categorias e impossibilidade apenas de discernimento? De que gaveta conceitual sacar tal sentimento? E tal sentimento é passível de ser categorizado em definições estanques? Não seria uma contradição em termos limitar o que sempre muda, transforma-se, altera-se, varia, metamorfoseia-se? Onde tudo isso vai parar? Se é que pára o que se move.

  Não tinha a intenção de ir tão a fundo. Juro.

Ser escritor (re-re-re-revisto).

Eu devia estar já na segunda-série. Era fraco em matemática. Muito fraco (e disso nunca me orgulhei. Nunca vi isso como um mecanismo compensatório: “Ah, se era fraco em exatas, em compensação nas humanas...”. Nada disso!). Tímido ao extremo, na hora do intervalo ficava encostado numa pilastra, ou sentado na mesa de refeições, ou permanecia mesmo na sala de aula vazia, com aquelas bolsas e blusas e pertences alheios todos a me “acusar”: “Veja como você é um inútil! Enquanto todos lá fora aproveitam os minutos para brincar, conversar e se distrair, você aí, seu lesma, sozinho, remoendo seus pensamentos ridículos !” Não eram, claro, essas as exatas palavras. Mas no conteúdo expressavam exatamente isso: um senso de inaptidão. Mas quando chegava a aula de Língua Portuguesa, de Produção de Textos, com a Leitura em Voz Alta, milagrosamente aquela timidez e todas aquelas idéias de inaptidão cediam lugar para um sentimento de ousadia, de certeza de fazer algo que realmente eu gostava, amava: escrever  e  ler. As únicas coisas que eu sentia que poderia fazer pela vida afora. Dito e feito: eu recebia elogios, até o término do Primeiro Grau (o Ensino Fundamental de hoje), unanimemente dos professores (de todos!) com os quais tive o privilégio de estudar. Dois ou três me vaticinaram (mais à minha mãe, nas temidas reuniões de Pais e Mestres) um grande futuro como escritor. E cresci com aquela idéia: ser escritor. Passei por vários momentos de desilusão, obviamente. Fui até rebelde por uns tempos. Mas sempre em mim permaneceu intacta a gana, a vontade, o tesão pela escrita. Sim, paradoxalmente sou preguiçoso para escrever. Mas me expressar por escrito é algo que está no sangue, embutido em cada uma das minhas células. Aliás sou um cara mais gráfico do que oral. Escrevo muito melhor do que falo. Não me refiro à fala, à dicção, à pronúnicia das palavras, evidentemente. Me refiro ao aspecto da comunicação mesmo.

Eu só vejo minha vida, não tenho medo de dizer isso, se completando na escrita/leitura. Não a escrita/leitura feita pelos que puderam freqüentar ótimas universidades (coisa que nem passa pela minha cabeça, que fique bem claro, é me ressentir por não ter tido acesso a tal maravilha. Me considero um autodidata. Mas não daquele tipo refratário ao ensino. Até porque hoje sou professor…) ou vivem em lugares repletos de oportunidades culturais. Nada disso faz de ninguém um artista, nem, mais precisamente, um autor na pura acepção da palavra. Até porque para ser um grande escritor é necessário ter uma certa carência de estímulos externos. Faz-se necessário uma certa vagueza e calma e bonança, algo dificilmente encontrável em grandes centros nos quais há um excesso de vozes vaidosas querendo atropelar a todos com discursos vazios de um sentido mais profundo. Obviamente ter acesso à uma Universidade de renome (fiz até o terceiro ano de Letras e tranquei o curso porque o achei muito fraco) abre os horizontes, proporciona a uma pessoa as ferramentas críticas e, em menor medida, teóricas. Mas não se é escritor por ter um ótimo currículo. Currículo não faz de ninguém um artista. A escrita é algo que se aprende… escrevendo. Lendo muito. Pensando muito. Elucubrando não menos. Pesquisando. O metiê de escritor é um dos que mais são favoráveis ao autodidata. É na solidão que um autor nasce.

Mas não era exatamente disso que eu queria tratar aqui. Era apenas da foto aí em cima. Aos seis anos, não poderia ainda ter a dimensão do que é ser escritor, claro. Mas trago comigo, desde tenra idade, desde o  ”tropeçar” em livros em casa, a grande paixão pelo criar, pelo encher de palavras as páginas, pelo descortinar todo um mundo através delas, as adoradas palavras, essas entidades tão poderosas, tão prenhes de possibilidades as mais infinitas.

O garoto que sonhava em ser escritor ainda está dando as cartas.

(Ah, até hoje lamento profundamente o fato de, aos dez anos, ter emprestado um caderno cheio de poemas e contos de minha autoria para uma pessoa da minha igreja. Ela nunca mais devolveu! Perdemos o contato com ela. Essa será uma das coisas que mais lamentarei na vida! Ah, sim: me refiro à perda do caderninho-relíquia, claro. Não à perda do contato com a tal pessoa, é evidente! Risos).

Não tenho a mínima preocupação em querer/ser/parecer o gênio. Essa palavrinha tão vulgarizada, tão enfraquecida, atualmente. Tenho preguiça, com raras exceções, de ler novos autores (as), por mais munido de boa-fé que eu esteja. Sou autocentrado, auto-referente ao extremo. Não copio ninguém. Por orgulho, sobretudo. Tenho meu próprio ritmo. Escrevo para mim mesmo. Se por acaso o que escrever ter uma certa ressonância em alguém, ótimo! Mas não escrevo para agradar quem quer que seja.

Meu ritmo é peculiar, idiossincrásico, sinuoso.

Não tenho pressa. Não quero estar na “boca do povo”. Dane-se o povo! O povo, aliás,  lê algo que preste? E isso vale para qualquer país…

Estou continuamente no processo de aprendizado.

E minha ferramenta básica, meu idioma, é algo que prezo imensamente. Nestes tempos em que “escrever bem” é sinônimo de tascar coisas tão vazias, tão repletas de vento, tão ridiculamente pretensiosas mas ao mesmo tempo tão agressoras ao idioma que, queiramos ou não, é o nosso, pois bem, nestes tempos de excesso de oferta de coisas descartáveis, estudar ou demonstrar interesse pela própria língua é considerado algo ultrapassado. Quem escreve e diz que não se preocupa com a matéria-prima, que é o idioma, ou é um (a) canastrão, um charlatão, um orgulhoso fútil, ou é alguém que engana a si mesmo que escreve. Ou qualquer outra alternativa altamente desabonadora.

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Sabem, talvez eu sofra de TOC desde pequeno, sei lá.

Minha mania? Querer ser escritor há vinte e cinco anos.

Garanto que o próximo quarto de século seré de trabalho prático!

Terei uns quinze ou vinte  para colher os louros…

Tá de bom tamanho!

Ou não?

 

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Ao som do Álbum Branco, dos Beatles

Em descompasso de espera.

  O descompasso entre o meu “eu”, aquele a partir do qual vejo o mundo e com o qual interajo com tudo o que está à minha volta, e os outros “eus”, é algo deveras incômodo. Ele me tira do eixo e me coloca num estado constante de neurastenia, tédio e cansaço.
  Os outros sempre nos vêem como seres unos, limitados, previsíveis, planos; sempre nos colocam em categorias facilmente discerníveis; ao passo que para nós mesmos, tal atitude é uma afronta. A fricção entre tais concepções, a que vem do Outro, e a que parte de mim, o choque entre essas placas tectônicas, enfim, esse atrito entre prismas tão diversos, isso nos paralisa, no primeiro momento. Temos gana de sair e enfrentar “mano a mano” cada um desses crápulas que insistem em nos negar toda aquela pujança interior que tão bem conhecemos.
  A nós, os hipersensíveis, marias e joãos choramingas, os eternos humilhados e ofendidos pela rudeza, aspereza e vulgaridade dos “toupeiras” que constituem o grosso da humanidade e com os quais estamos fadados a ter de conviver, a nós, os sutis, os impressionáveis, os sugestionáveis de todos os quadrantes, a todos nós, irmãos e irmãs da vulnerabilidade explícita, resta-nos nosso último refúgio, derradeira “arma”: um sonoro riso, uma gargalhada bestial, colossal, daquelas que vêm do mais profundo de nós mesmos: demos todos à massa acéfala a alegria – ilusória, pois efêmera – de nos colocar em suas definições pífias. Deixemos que nos nos vejam e nos considerem e nos tratem como seres unidimensionais. Proporcionemos aos míopes existenciais, aos vegetais em forma humana, aos embotados, aos fósseis ambulantes, a toda essa fauna de cegos e surdos e daltônicos e afônicos e autistas (com todo o respeito por aqueles que padecem desses males) das coisas etéreas, desconhecedores todos da riqueza das filigranas ínfimas e ao mesmo tempo grandiosas, concedamos a toda essa corja a glória-miragem de achar – só achar, só supor! – que estamos onde eles nos colocam. Que ajimos segundo as expectativas deles. Não extrapolemos, num primeiro momento, o círculo de giz no qual eles nos encerram.
  Quando na verdade…

  Quando na verdade abarcamos o mundo com nossas potentes antenas. Quando o que nos define, realmente, é nossa própria indefinição.
  Sim, somos o ápice dos paradoxos! Deles nos alimentamos. Que nos vejam unos, previsíveis, planos, pois!Finjamos seguir o “roteiro” a nós imposto.
  Que cada um de nós saiba quando for o momento propício para dar o bote!
  Nesse “descompasso de espera”, passemo-nos por mortos.
  Finjamos, vamos dar a impressão de sermos domesticáveis.
  A luta descontínua continua…

Estreando a Operação Resgate, passo a pinçar alguns textos de outrora aqui publicados.

Para que escrever?

Alinhavar palavras, tecer comentários, escolher termos, cortar outros, ligar idéias aparentemente desconexas. Escrever, escrever mesmo para que ninguém mais leia. Encher a folha ou a tela em branco. Inserir letras, sílabas, palavras, frases, orações, períodos, parágrafos. Tirar conclusões, observar uma idéia se desenvolver, tomar forma, ganhar corpo, vida. Engravidar as palavras com novos sentidos, fecundá-las, fazê-las plenas de vidas autônomas. Tomar, por meio das palavras, o mundo nas mãos. Analisar a vida, virá-la do avesso, torná-la entendível. Escutar a voz interna que dita o ritmo das palavras. Elas, as palavras, que são a criação mais poderosa de que o ser humano dispõe. O poder que elas têm de vivenciar, relembrar, deslocar, criar, destruir, sugerir, sintetizar, explicar, mostrar, ensinar.

Escrever, seja um romance, um conto, uma crônica, um poema, uma ode, um bilhete, um e-mail, um comentário subjetivo em um blog: basta acionar as palavras, pinçá-las, retirá-las de seu estado frio de dicionário, escrevê-las, juntá-las e dessa ação tão mecânica a nós, dessa combinação infinita de possibilidades, de potencialidades, domar o mundo e seus fenômenos (nós incluídos), domesticá-lo, torná-lo algo passível de controle, de entendimento.

Precisa-se de um outro motivo para escrever?

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Publicado em 3 de março de 2007

Pseudofilosofices

O acaso, a gratuidade e o caráter não-programado de toda aquela teia de acontecimentos que nos cercam, tudo isso faz de nós meros fantoches, pequenos bonecos ao sabor das circunstâncias.

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O múltiplo em mim não enxerga o múltiplo em você e você, sendo para você mesmo múltiplo, me vê apenas como uno. De onde se tira a conclusão que só nós, individualmente, nos vemos como seres complexos e multifacetados. Os outros nos enxergam como seres unidimensionais. Sempre!

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A vida escorre entre os dedos. O Tempo nos molda. As pessoas com as quais nos relacionamos nos deixam marcas. O mundo nos transforma. As transformações nos arremessam a um permanente estado de “corda esticada”: é como se sempre estivéssemos num ponto máximo. O arco retesesado no último.

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Numa das mãos, o ancião trazia a certeza de que já havia vivido tudo. Na outra, a incerteza de ter vivido de verdade.

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Muitas vezes, o que mais nos incomoda é a certeza, a convicção de que a vida é assim uma peça de teatro porcamente ensaiada, com os atores canastrões por todos os lados e o texto paupérrimo. E a noite de apresentação é de gala. E o público, também ele de atores, na sua grande maioria, canastrões.

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O derradeiro pensamento do homem que estava nas últimas foi: “Já acabou a palhaçada?”

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Por que as pessoas insistem em nos incomodar com suas queixas sobre os mais comezinhos assuntos quando todos podíamos usar a oportunidade para perguntar: “O que você tem feito pra estragar menos o mundo com tua presença pestilenta?” Ou, uma variação mais sofisticada: “O que você faz para diminuir o potencial pestilento de sua presença no mundo?”

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Estamos todos convictos de que somos imprescindíveis ao outro. O outro está seguro de ser insubstituível e auto-suficiente.
Ou somos todos seres infantis a ponto de nos iludirmos com tanta facilidade; ou nossa arrogância é absurdamente ilimitada ou, por fim, temos consciência de nossas auto-ilusões e mesmo assim as mantemos…
Algo não fecha aí.

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Ver e ser visto.
Vitrines ambulantes. Nossos corpos como a destacar o quanto somos bem-sucedidos, perfeitos e irresistíveis. Nesse raciocínio tosco, haveria sempre a premissa segundo a qual o meu exterior me define. O espelho capta minha essência. A academia é meu templo. O meu sex appeal, minha filosofia de vida. As mulheres virando a cabeça ao me ver passar, eis meu projeto de vida!

Por dentro, ora, por dentro… quem irá se preocupar com o interior?

Ponderações fastasmagóricas.

OS MAIS PROFUNDOS, impublicáveis e inomeáveis produtos de nossas fantasmagorias estão a anos-luz da realidade sem relevos, sem sobressaltos, plana, banal, lisa como vidro. Isso não é novidade. Bem, exceto para os que vivem sem questionar, sem ir às profundezas das coisas.

Um ato simples como nos desfazermos de algo muito ligado a nós, por exemplo, os cabelos, pode nos proporcionar essa sensação a que me referi. Sim, você leu corretamente!

Experimente: enquanto o cabeleireiro está a despachar seus (ênfase afetiva neste pronome) outrora tão íntimos cabelos, você começa a imaginar que com eles vão alguns dos seus mais caros pensamentos e idéias e insights. Adeus, aquele comentário que você fiz naquela ocasião e que levou todos a te imaginar um grande espirituoso. Adeus, lembrança daquela beldade estonteante que você viu de relance no trânsito! Nunca mais seus sonhos das últimas semanas, farewell sensações únicas e efêmeras, vão com Deus, associações de idéias, elucubrações, ponderações, comentários a serem feitos sobre um filme, um livro, um artista, ciao, observações sobre os acontecimentos os mais diversos. Com seus cabelos, vai-se toda aquela parafernália que fez de você alguém específico, naquelas semanas. Ao caírem, caem suas idiossincrasias e sua mais íntima essência. Todo o seu mais estimado universo particular está ali, ao sabor do vento que vem de fora, da vassoura do cabeleireiro, que amontoará tudo aquilo (de que servem tantas idéias sem raiz, arrancadas do nascedouro, extirpadas para sempre da realidade em que tinham a existência justificada?) numa pá e colocará num saco plástico escuro para que ninguém tenha mais a visão daquilo que um dia fora você, sua parte mais íntima e que tivera vida, havia pulsado, crescera, se desenvolvera para enfim chegar ao seu derradeiro e inescapável destino: o lixo. Você de alguma forma estava ali prestes a ser levado para o lixão!

A sensação será desnorteante: você se sentirá privado daquilo tudo que lhe dava um chão, um norte. E se sentirá enciumado. Afinal, alguém, um estranho, veio e com um instrumento castrador lhe arrebatou em poucos minutos, com uma destreza irritante, tudo aquilo que levara tempo para se formar.

E em seguida você irá se sentir perdido, vazio, para logo em seguida sentir-se tomado de outra e inevitável sensação: tudo fora ilusão, devaneio, fastasmagoria de uma cabeça doentiamente fadada a sentir em excesso as mais variadas e absorventes elucubrações.

Seus cabelos não eram nada daquilo que você imaginara havia poucos minutos!

A realidade o chamava. O cabeleireiro agora dava os retoques finais, tirava a capa protetora dos seus ombros, com o olhar lhe dizia: “Ei, amigo, prontinho. Espero que volte logo. São 20 reais! Estou com pressa, tem mais gente na fila. Grato pela preferência.”

Era a Realidade. A mais prosaica das realidades a te tragar, a te arrastar, a te devorar, a te engolir na sua enorme boca. A mastodôntica Realidade.

Era a Realidade sem sobressaltos, porém. A Realidade plana. A Realidade das certezas, do pronto, do acabado, do esperado.

Paradoxalmente, a única instância em que temos uma certa segurança.

Na instabilidade da Realidade com seus imprevisíveis caprichos, há também a segurança, a estabilidade. Uma segurança que está a anos luz de nossas fantasmagorias.

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Texto inspirado (e livremente desenvolvido!) na leitura de 101 Experiências de Filosofia Cotidiana, de Roger-Pol Droit, da editora Sextante.

 

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Ao som de Joseph Haydn, Sinfonia nº 100 em sol maior, “Militar“: Adagio, Allegro; Allegretto; Minueto e Trio – Moderato; Finale – Presto

"Às almas desconsoladas deste mundo e também (principalmente) às devidamente já consoladas: tudo de passar há de!" (Discurso para quem tiver peito de encarar o Speaker’s Corner no Hyde Park, em Londres…Mas citem a fonte, tá?).

 

“PASSA, meus filhinhos, praticamente tudo passa! Apenas uma coisa não passa. Ouçam este vetusto ermitão das montanhas rochosas de Saint Claude e descobrirão o que é que não passa! Atentem para as minhas palavras, que são sábias e cortantes como uma adaga, penetrantes como a mais afiada das lâminas e cristalinas como a água das mais puras fontes.

O passado, como o nome diz mas muita gente insiste no contrário, passa. Passa o presente. O futuro, até ele, passa. Passam as quimeras. Passam as decepções. Passa a estupidez. Passam os néscios. Os gênios de todos os quadrantes e saberes… ah, esses também passam. Assim como passam as canalhices. Passa o desalento. O vigor passa. Não menos passageira é a tristeza medonha. A alegria transbordante passa. A hipocrisia passa. A sinceridade passa. A virtude passa. Os vícios passam. O entusiasmo passa. Passa a irritação. A decepção passa. O contentamento passa. Passam os tropeços. As mudanças passam. A mesmice passa. As expectativas passam. Passa a rotina. O novo passa. O velho passa. O já-visto passa. O ainda-por-ver-ser-visto passa! Passa o porvir. Este dia maldito passa. Passa o amanhã, igualmente o dia pleno de satisfações. Este dia ensolarado e aquele chuvoso e nublado passam. A ignorância passa. O aprendizado passa. As dificuldades passam. Passam, se passam!, os momentos de desânimo, bem como passam os de êxtase, igualmente aqueles em que a vontade impera, reina e nos move rumo a todas as possibilidades ainda a ser descortinadas. Passam os donos do poder. Os mendigos passam. Os arrogantes passam. Passam os humildes. Os governantes passam. Os ídolos fabricados do dia para a noite passam. As falsas palavras de amor. As sinceras palavras de ódio. As celebridades descerebradas passam. Assim como os tolos passam. Os sábios, os pseudo-sábios, os sábios autênticos que ainda não se descobriram autênticos e os tolos duplamente ignorantes, sobretudo porque não se sabem tolos, todos eles passam. Este ermitão passa. O ouvinte passa. Você, cara ouvinte, enfim, todos hão de passar. Passará tudo que vive, que ainda não vive, que ainda há de nascer. A memória de nossa passagem por aqui, esta também de passar há de! Nossos átomos, fios de cabelos, todos passam. A transitoriedade passa. Do contrário, não seria transitoriedade. Somos feitos dela. Ela nos caracteriza. Somos dela fantoches. Dela somos filhos distintos. Tudo o que há é dela nascido. Estamos no meio de um movimento infinito rumo a algum lugar. Mesmo que seja o nada. O nada passageiro Nada que nos espera. O grande Nada que, no final, é a coisa que não há de passar. Nele mergulharemos.

Nada de tristeza, pois, meus filhinhos, tudo praticamente passa!

“Tempus longum vitiat lapidem! (Tudo passa sobre a terra!)”

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Ao som de Gioacchino Rossini, Aberturas de Óperas Cômicas: Il Barbiere di Siviglia, Il signor Bruschino e La Pietra del Paragone