Eu devia estar já na segunda-série. Era fraco em matemática. Muito fraco (e disso nunca me orgulhei. Nunca vi isso como um mecanismo compensatório: “Ah, se era fraco em exatas, em compensação nas humanas...”. Nada disso!). Tímido ao extremo, na hora do intervalo ficava encostado numa pilastra, ou sentado na mesa de refeições, ou permanecia mesmo na sala de aula vazia, com aquelas bolsas e blusas e pertences alheios todos a me “acusar”: “Veja como você é um inútil! Enquanto todos lá fora aproveitam os minutos para brincar, conversar e se distrair, você aí, seu lesma, sozinho, remoendo seus pensamentos ridículos !” Não eram, claro, essas as exatas palavras. Mas no conteúdo expressavam exatamente isso: um senso de inaptidão. Mas quando chegava a aula de Língua Portuguesa, de Produção de Textos, com a Leitura em Voz Alta, milagrosamente aquela timidez e todas aquelas idéias de inaptidão cediam lugar para um sentimento de ousadia, de certeza de fazer algo que realmente eu gostava, amava: escrever e ler. As únicas coisas que eu sentia que poderia fazer pela vida afora. Dito e feito: eu recebia elogios, até o término do Primeiro Grau (o Ensino Fundamental de hoje), unanimemente dos professores (de todos!) com os quais tive o privilégio de estudar. Dois ou três me vaticinaram (mais à minha mãe, nas temidas reuniões de Pais e Mestres) um grande futuro como escritor. E cresci com aquela idéia: ser escritor. Passei por vários momentos de desilusão, obviamente. Fui até rebelde por uns tempos. Mas sempre em mim permaneceu intacta a gana, a vontade, o tesão pela escrita. Sim, paradoxalmente sou preguiçoso para escrever. Mas me expressar por escrito é algo que está no sangue, embutido em cada uma das minhas células. Aliás sou um cara mais gráfico do que oral. Escrevo muito melhor do que falo. Não me refiro à fala, à dicção, à pronúnicia das palavras, evidentemente. Me refiro ao aspecto da comunicação mesmo.
Eu só vejo minha vida, não tenho medo de dizer isso, se completando na escrita/leitura. Não a escrita/leitura feita pelos que puderam freqüentar ótimas universidades (coisa que nem passa pela minha cabeça, que fique bem claro, é me ressentir por não ter tido acesso a tal maravilha. Me considero um autodidata. Mas não daquele tipo refratário ao ensino. Até porque hoje sou professor…) ou vivem em lugares repletos de oportunidades culturais. Nada disso faz de ninguém um artista, nem, mais precisamente, um autor na pura acepção da palavra. Até porque para ser um grande escritor é necessário ter uma certa carência de estímulos externos. Faz-se necessário uma certa vagueza e calma e bonança, algo dificilmente encontrável em grandes centros nos quais há um excesso de vozes vaidosas querendo atropelar a todos com discursos vazios de um sentido mais profundo. Obviamente ter acesso à uma Universidade de renome (fiz até o terceiro ano de Letras e tranquei o curso porque o achei muito fraco) abre os horizontes, proporciona a uma pessoa as ferramentas críticas e, em menor medida, teóricas. Mas não se é escritor por ter um ótimo currículo. Currículo não faz de ninguém um artista. A escrita é algo que se aprende… escrevendo. Lendo muito. Pensando muito. Elucubrando não menos. Pesquisando. O metiê de escritor é um dos que mais são favoráveis ao autodidata. É na solidão que um autor nasce.
Mas não era exatamente disso que eu queria tratar aqui. Era apenas da foto aí em cima. Aos seis anos, não poderia ainda ter a dimensão do que é ser escritor, claro. Mas trago comigo, desde tenra idade, desde o ”tropeçar” em livros em casa, a grande paixão pelo criar, pelo encher de palavras as páginas, pelo descortinar todo um mundo através delas, as adoradas palavras, essas entidades tão poderosas, tão prenhes de possibilidades as mais infinitas.
O garoto que sonhava em ser escritor ainda está dando as cartas.
(Ah, até hoje lamento profundamente o fato de, aos dez anos, ter emprestado um caderno cheio de poemas e contos de minha autoria para uma pessoa da minha igreja. Ela nunca mais devolveu! Perdemos o contato com ela. Essa será uma das coisas que mais lamentarei na vida! Ah, sim: me refiro à perda do caderninho-relíquia, claro. Não à perda do contato com a tal pessoa, é evidente! Risos).
Não tenho a mínima preocupação em querer/ser/parecer o gênio. Essa palavrinha tão vulgarizada, tão enfraquecida, atualmente. Tenho preguiça, com raras exceções, de ler novos autores (as), por mais munido de boa-fé que eu esteja. Sou autocentrado, auto-referente ao extremo. Não copio ninguém. Por orgulho, sobretudo. Tenho meu próprio ritmo. Escrevo para mim mesmo. Se por acaso o que escrever ter uma certa ressonância em alguém, ótimo! Mas não escrevo para agradar quem quer que seja.
Meu ritmo é peculiar, idiossincrásico, sinuoso.
Não tenho pressa. Não quero estar na “boca do povo”. Dane-se o povo! O povo, aliás, lê algo que preste? E isso vale para qualquer país…
Estou continuamente no processo de aprendizado.
E minha ferramenta básica, meu idioma, é algo que prezo imensamente. Nestes tempos em que “escrever bem” é sinônimo de tascar coisas tão vazias, tão repletas de vento, tão ridiculamente pretensiosas mas ao mesmo tempo tão agressoras ao idioma que, queiramos ou não, é o nosso, pois bem, nestes tempos de excesso de oferta de coisas descartáveis, estudar ou demonstrar interesse pela própria língua é considerado algo ultrapassado. Quem escreve e diz que não se preocupa com a matéria-prima, que é o idioma, ou é um (a) canastrão, um charlatão, um orgulhoso fútil, ou é alguém que engana a si mesmo que escreve. Ou qualquer outra alternativa altamente desabonadora.
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Sabem, talvez eu sofra de TOC desde pequeno, sei lá.
Minha mania? Querer ser escritor há vinte e cinco anos.
Garanto que o próximo quarto de século seré de trabalho prático!
Terei uns quinze ou vinte para colher os louros…
Tá de bom tamanho!
Ou não?
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Ao som do Álbum Branco, dos Beatles